Talvez isso seja coisa de quem trabalha tempo demais em uma área, como um açougueiro que vira vegano ou educador físico que fuma. Mas simplesmente não consigo ver relevância na maioria dos trabalhos acadêmicos que reviso. Sempre me deparo com uma escrita engessada, cercada de redundâncias e inseguranças. Não me leve a mal, eu respeito o esforço intelectual de meus clientes para produzir conhecimento, mas o currículo Lattes arruína tudo. O conhecimento, como outros relacionamentos desta vida, vem com o tempo, e não é um órgão do governo cobrando meta que vai mudar isso. Aquela coisa no imaginário coletivo, da relação mestre-discípulo tão cara ao Oriente, não existe na academia. Fazer uma pós-graduação é ter um orientador que é uma espécie de Seu Miyagi às avessas. Em vez de ensinar caratê, ele te manda encerar toda a frota dele, e ainda reclama se você se atrasar por o doidinho do bairro ter batido em você no caminho. Me gabo de fazer o trabalho do orientador, em muitos aspectos. E infelizmente não exagero: vários somem do mapa e ficam dando entrevistinha na TV universitária ou fazendo estágio pós-doutoral em vez de trabalhar.
Quem nunca experimentou abandono afetivo, vai começar a fazê-lo ao ter um orientador. Notas boas, bom comportamento em sala, prazos cumpridos? Nada parece o bastante para se obter validação. Tudo que importa é artigo. O conhecimento possui diversas competências, e o sistema cobra apenas uma. Docência, coordenação de projetos, produção de artigos que ninguém lerá, aplicação na sociedade do que se aprende na academia… tantas possibilidades, e só uma é considerada. Um narcisismo intelectual que te faz sentir sempre culpado e atrasado para cumprir metas, independentemente de seu desempenho e pontualidade nelas. Um ghosting legitimado pelo discurso hipócrita de o estudante precisar ganhar autonomia.
Seguem abaixo algumas observações rotineiras em minhas revisões. Ressalto que as elenco aqui sem nenhuma intenção de menosprezar o trabalho das pessoas, mas sim de apontar coisas que um orientador mais dedicado poderia aconselhar:
- “Você já disse isso”: perfeitamente normal. O ser humano se repete, e o português brasileiro parece ter uma norma gramatical não escrita que exige isso. Acontece: quando se passa muito tempo debruçado em um texto, é inevitável.
- “Não se separa, com vírgula, o sujeito do verbo”: algumas pessoas tendem a ser econômicas com pontuação, mas a esbanjam onde não devem…
- “Redundante”: a insegurança faz as pessoas usarem muito mais palavras do que o necessário. “O ano de 2023” em vez de apenas 2023, o mesmo autor citado 180 vezes em uma dissertação (sim, revisei um trabalho assim), “dados prévios” em vez de apenas dados…
- “Essa pesquisa não esgota o tema, e mais artigos precisam ser escritos para…, blablabla”; “Este trabalho pretende realizar…”: clichês. Todo artigo é assim, o conhecimento é uma corrente, elos sendo constantemente ligados a ela.
- Apenas citações diretas: existe um medo entre o estudante de usar citações indiretas, como se se sentissem roubando trabalho alheio. Isso resulta em trabalhos que mais parecem fichamentos, com citações diretas intermináveis. Coitados, mal sabem como o conhecimento é um plágio que aposta na ignorância alheia para obter validação…
The research had limitations regarding the return of the questionnaire administered. Therefore, the number of respondents may not be representative enough to extrapolate the results to the entire population of companies providing accounting services. A larger sample could provide more robust and reliable results.
A colocação acima é um clássico. Não precisa avisar isso ao leitor. Mesmo discursos que são entendidos como imutáveis, como os religiosos, são passíveis de análises e discussões. Nada é acabado nesse mundo, muito menos o conhecimento. E sim, já revisei trabalhos cujo autor citava obras religiosas. Preocupante.