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Gramáticas antigas

Tem um projeto pessoal que ando adiando por anos: escanear alguns livros antigos de ensino de português ou língua estrangeira. Havia raridades na prateleira da família dos anos 1950, que ano após ano se esvanecem no éter do tempo. Após terminar um processo de mudança de casa, creio que a oportunidade perfeita se apresenta. Mas antes de começar, compartilho aqui uma sugestão de livro de latim, que era muito lida para as crianças. Obra do século XVI que chega até nós graças ao Internet archive: Orbis sensualium pictus, de Johann Amos Comenius. Consiste em apresentar textos bem didáticos sobre diversos aspectos da vida cotidiana, tudo em duas colunas, confrontando a versão em latim com a tradução em inglês. Apesar de a letra ‘s’ minúscula se confundir com a ‘f’, a versão latina está em boas condições de ler, embora não se possa dizer o mesmo da versão em inglês, com alguns borrões e escrita naquela fonte mais rebuscada do Old english.

A leitura, inesperadamente, vale também para se observar como o romano pensava. Ao sermos apresentadas ao vocábulo terra-moto, descobrimos que os romanos acreditavam que eram enchentes no subsolo que faziam a terra tremer diante de seus pés. Aquele pavor deles, de o céu cair sobre suas cabeças, tão explorado nos quadrinhos e filmes de Astérix, não era caso isolado. O eurocentrismo é inevitável, mas o texto cumpre seu propósito: traz muito insumo ao aprendiz, com verbos usados de forma simples e declinações nos mais variados usos. Então, percebe-se que, na mentalidade do europeu, o latim não é mera excentricidade intelectual a se estudar; é algo natural em sua mentalidade coletiva. E quanto ao ensino desta caprichosa língua, o governo italiano recentemente decidiu retomar o ensino de latim em seus currículos. Só espero que esse currículo não dialogue demais com textos religiosos. Vejo sempre com desconfiança quando religiões usam o ensino de uma língua para transmitir seus dogmas, temor que Zamenhof também tinha, mas pelo menos esse movimento está presente. Estudar latim não é estudar uma língua só: é estudar todas as línguas que derivaram dela, é ganhar autonomia para refletir sobre a forma como uma palavra ou um texto foram elaborados, gerando grande confiança no estudante. Chega a ser paradoxal o país com mais faculdades de direito no mundo não ensinar latim em suas escolas.

Segue abaixo um excerto do Orbis, escolhido pela quinta série em mim:

Animal vitit, sentit, movet se, nascitur, moritur, nutritur et crescit; stat aut sedet, aut cubat, aut graditur.
Avis (hic halcyon, in mari nidulans), tegitur plumis volat pennis, habet duas alas, totidem pedes, caudam et rostrum. Foemella in nido ponit ova, iisquee incubans, excludit pullos. Ovum tegitur testa, sub qua est albumen, in hoc vitellus.

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