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Comunismo com características ondestanesas

Nossa cúria sente que o aparato administrativo de nosso glorioso país ainda possui traços de pessoalidade excessivos, e vem deliberando medidas para mitigar essa mania da humanidade de avisar o tempo todo que mijou nos lugares primeiro.

Em primeiro lugar, Ondestão quer banir os nomes pessoais. Os três primeiros dígitos do número de identidade de cada cidadão passaria a ser seu nome. O autor deste artigo, por exemplo, passaria a ser o 718. Sonoro, não? De qualquer forma, é uma medida que tornariam os cartórios imunes a nomes da moda, como Enzos, Valentinas, Pietras e Noahs, e ainda combateria os anglicismos e outros empréstimos não solicitados de outras culturas imperialistas, blindando Ondestão de ser imerso em referências pop pobres. Países como Portugal, Cuba ou Islândia possuem listas com os nomes permitidos, mas não somos ditadores: não vamos obrigar ninguém a escolher este ou aquele nome; vamos apenas nos referir a cada cidadão pelo que ele sempre foi, um número. Nossos parlamentares chegaram a pensar em, seguindo medidas sustentáveis, não imprimir mais os documentos de identidade e imprimir os números por meio de tatuagens nos antebraços dos cidadãos, mas ainda é dúvida se esta sugestão avançará pelas comissões do Senado: alegam que esta medida pode ser comparada a antissemitismo e a uma certa guerra distante que aconteceu naquele distante continente onde um terço da população morria no passado por não lavar as mãos. Os acordos assinados por essa turma dos direitos humanos dificultam o trabalho do legislador.

Banir nomes de pessoas, vivas ou mortas, de lugares públicos seria o próximo passo. Se uma via pública tem nome de político, padre ou general, por exemplo, uma coisa é certa: este indivíduo matou e roubou bastante para ter esse direito de ter suas frágeis existências e egos eternizados em um pedaço de via pública de 200 m de extensão pavimentado com asfalto barato, casca de ovo. Os nomes poderiam ser substituídos por referências mais objetivas, como o código postal. Fazendo paralelo com nosso vizinho tupiniquim, um bairro poderia ser chamado de, por exemplo, 78065, e uma determinada porção do bairro, incluindo as ruas, de 245. Para tornar o sistema menos árido no cotidiano, as comissões discutem a possibilidade de importar uma adaptação do sistema postal do reino unido, que usa letras com números. Além disso, para fins de se criar consciência histórica na população, a legislação teria que exigir do gestor público a instalação de alçapões públicos com escotilhas de aço, ao lado de estátuas dos líderes que outrora nomeavam a via pública. A ideia seria, para fins didáticos, escolher infratores registrados pela ROBOCOP (Ronda dos Bons Costumes Policial), flagrados usando os nomes antigos das vias, para serem trancados nestes locais por 24 horas, sem água nem comida. Os alçapões, de preferência, devem ser instalados nas saídas de escolas, igrejas, diretórios políticos, sindicatos e outros lugares que geram aglomerações, para que, durante a circulação de pessoas, o terror dos gritos da pobre alma trancafiada neste lugar degradante tenha a função didática de banir das mentes da coletividade quaisquer indícios da existência dos déspotas do passado. Denúncias anônimas, infundadas ou não, seriam incentivadas. Nada como o pânico para manter um populacho dócil. Dizem que a Mongólia faz isso com seus adúlteros nas vilas mais remotas, mas seria terror demais cuidar do genital alheio.

Individualidade não é incentivada em nossa gloriosa nação, e as cores das roupas são rigorosamente fiscalizadas pela ROBOCOP. Apenas tons de cinza podem ser usados, e os tons autorizados seguem uma escala oficial que deve ser afixada nas fachadas de todas as lojas de roupas. E, ao centro das camisas, camisetas, blusas, vestidos, tops, sobretudos e outras peças de vestuário, uma letra bem visível deve identificar o perfil do cidadão:

  • A: adúltero; B: bigotismo (para não doadores do valor mínimo de dízimo de sua designação religiosa ou àqueles que não frequentam uma igreja ou templo há mais de três meses, o que é passível de comprovação com um cartão carimbado na paróquia do fiel);
  • C: canhoto; Cg: cigano; D: daltônico; E: esquizofrênico (usado na ausência de laudo médico que ateste o contrário); F: flâneur (propensão reduzida a procriar);
  • G: golddigger (pessoa em relacionamento com diferença de idade superior a 15 anos)
  • Mc: estourou a margem do consignado; P: bate palmas pro pôr-do-sol; Rp: não possui mais o réu primário; V: vegano.

E uma medida revolucionária vem deixando o mercado nervoso. Sim, sempre ele: Ondestão quer adotar cédulas específicas para a classe social de quem a usa. Para quê? Para rastrear a origem do dinheiro que circula no mercado com mais facilidade, e para garantir que a informalidade não devore toda a riqueza gerada pelos negócios legais de Ondestão. Por exemplo, se um cidadão de classe baixa junta um milhão de dinheiros e deseja comprar uma Porsche, o revendedor que aceitar o dinheiro terá que se explicar às instituições financeiras como um cidadão de baixa renda, trabalhando honestamente, foi capaz de pagar tudo aquilo por aquele bem. Outra medida, mais passivo-agressiva, consiste em imprimir, nas notas, a atual taxa de juros. E quanto aos cidadãos de classe média ou ricos, você se pergunta. Esses usam cédulas com o valor do IOF impressas e das operações financeiras isentas de IR. Mais importante do que manter nossos amigos ricos ricos, é manter nossos amigos de classe média média o suficiente para acharem que são ricos e simpatizarem mais com nossas políticas mais impopulares. Ainda analisamos com carinho a possibilidade de alugar algumas cédulas para estampar os rostos de influenciadores que são patrocinados por bets, e devemos confessar que os lobistas da Imacubet são bem, digamos, convincentes.

Quanto aos nossos atletas, nos sentimos divididos: devemos estimular as diferenças entre o vigor físico de nossos cidadãos em nome de alguns breves momentos de glória sobre o tatame de arenas estrangeiras? Para combater isso e reservar o espírito competitivo para eventos internacionais, o ensino de educação física em Ondestão exige que todos pratiquem atividades físicas e participem de eventos esportivos nacionais em que sejam beneficiados as equipes e atletas que obtiverem empates, sempre empates. Mas você se pergunta: se os atletas são obrigados a empatar sempre, o que os motivaria a praticar esporte? Simples: se uma equipe de futebol, por exemplo, perde de 6 a 0 para o Regateiro, a partida segue normalmente, com a equipe líder tendo todos os próximos gols anulados, e só termina quando a equipe perdedora for capaz de empatar. Em esportes como vôlei, com número limitado a sets, caso uma equipe perca por 3 sets a 1, a equipe líder terá os pontos subsequentes automaticamente anulados até que a equipe perdedora seja capaz de empatar. Mais importante do que jogar ganhando é jogar perdendo, e Ondestão louva os perdedores, que persistem apesar das adversidades. Qualquer idiota pode vencer em um dia de sorte, mas só alguém com nervos de aço cansa a mente do adversário até este lhe conceder um empate. A vitória de Pirro está na alma do ondestanês.

A fim de aliviar os tensionamentos políticos, Ondestão vem integrando equipes de futebol à participação no teatro político. Já que nosso sistema caminha para o unipartidarismo e os lobistas dificilmente permitirão um ator das massas chegar a nossos espaços de poder, nada mais eficiente do que convencer populares vestindo camisas da mesma cor e se esgoelando por uma bola passando por entre traves de que eles têm voz. Fundos de pensão, as forças policiais obtendo permissão mais facilitada para atuar em áreas da cidade sob controle das torcidas… as possibilidades são infinitas. Poderíamos ficar anos sem concurso para as forças de segurança se convencêssemos esses zé-manés de que organizar milícias é uma boa ideia e que organizadas são muito mais eficientes para acompanhar o crescimento e a sensação de segurança de uma comunidade. O que é mais atrativo, um uniforme ou uma camisa de time com patrocínios de empresas fazendo greenwashing? Sem falar em adotar alguns jogadores para serem nossos embaixadores. Tem opção para tudo: para quem condena e para quem apoia o feminicídio, por exemplo. Poderíamos até substituir júris pelas torcidas nos estádios durante os clássicos. No intervalo do primeiro tempo, imagens de algum crime de grande comoção popular podem ser exibidas e a torcida pode ser conclamada a condenar ou poupar o acusado, no melhor estilo romano, apontando o polegar para cima ou para baixo. Ao passo que certos países organizam plebiscitos, acreditamos esta ser uma alternativa muito mais eficiente. Não interessa para nós liberar ou não o acesso às armas, nos interessa escolher o lado certo para que o povo nos esqueça durante nossas negociatas. E foi assim que deixamos o povo decidir. Que turba não teria o melhor juízo de valor quando entretida com seu pão e circo?

E, claro, notemos que a confecção das camisas de times são um raro respiro de liberdade diante do rigoroso dress code de Ondestão. Mais um motivo para irmos mais longe nesta associação cínica e fictícia entre apoiar uma equipe de futebol e liberdades civis.

Seu genital é nosso

O controle de natalidade também passa por nosso crivo: em vez da drástica política do filho único imposta pelos chineses, pensamos em uma saída pela tangente: um casal pode ter filhos, mas a quantia deve ser na mesma quantidade para ambos os sexos. Ou seja, se um casal tiver um menino, precisa providenciar uma menina. Quando a natureza não colaborar e um segundo menino chegar ao mundo, por exemplo, nossos legisladores pensaram em tudo: nesse caso, o casal fica obrigado a adotar ou, no mínimo, a apadrinhar duas meninas no orfanato mais próximo em, no mínimo, 10% da renda conjunta do casal por criança por mês. Diferentemente das legislações autoritárias de outros países, Ondestão permite exames para se descobrir o sexo da criança antes mesmo da concepção. E, de certa forma, funciona como uma forma de combater a baixa natalidade de nossa gloriosa nação. Sempre teremos casais sem TV em casa cujo homem é obcecado em ter um filho homem e enche a casa de meninas até seu sonhado menino sair. Se uma família tiver quatro meninas biológicas, por exemplo, o patriarca terá que adotar ou apadrinhar outros quatro meninos até seu menino biológico chegar. Todos saem ganhando: ganha a esposa, que tem a garantia de que boa parte da renda estará comprometida com as adoções ou apadrinhamentos, ganham os orfanatos, com mais rotatividade, e ganha a previdência pública, que pode postergar a próxima reforma. E mais uma coisa: caso o casal discorde de igualar o quantitativo de filhos e filhas na família, devem ser esterilizados compulsoriamente. Negar-se a isso pode acarretar em impedimento de concorrer a cargos públicos ou a ser enquadrado em crime previsto em nosso código penal, a procriação desproporcional.

Filhos gerados fora do casamento e sem pai conhecido devem ter esta informação registradas em seus nomes com a letra ‘B’ pelos tabeliões, para que não possuam direito ao casamento.

Fonte: https://www.threads.com/@arc_needs/post/DOdq24eCPG0

E não paramos por aí: Ondestão, na figura de seu Ministério das Cidades, vem combatendo o problema de falta de moradias matando dois coelhos com uma cajadada só. Equipes multidisciplinares com arquitetos, engenheiros, corretores de imóveis, entre outros, estão trabalhando na importante tarefa de dar um teto às pessoas e fazendo-as procriar.

Fonte: https://www.archdaily.com.br/br/983151/estados-concretos-o-legado-habitacional-da-era-sovietica/628b433f3e4b31c04c00001c-concrete-estates-the-legacy-of-soviet-era-housing-photo

Valendo-se da pré-fabricação, Ondestão não tem tempo a perder: painéis de concreto fabricados industrialmente são encaixados em um processo altamente automatizado, com a mão de obra no local praticamente eliminada pelo uso de guindastes e linhas de produção. Para quebrar a monotonia cinza dos programas habitacionais dos tempos soviéticos, os aluguéis são pré-fixados de acordo com a cor das fachadas. Não basta querer morar em uma dessas unidades; é preciso se encaixar nos critérios socioeconômicos estabelecidos por nossos gestores e devidamente registrados em cores.

  • Fachada vermelha, janelas brancas: exclusivo para solteiros e pessoas sem intenções reprodutivas, respectivamente. A entrada deve permitir a visualização de todos os quatro cômodos, conforme imagem acima: sala de estar, cozinha e dois quartos. A ideia é manter essas instalações exclusivas para a mão-de-obra barata que trabalha nas regiões mais centrais de nossas cidades. Repare que não dissemos “porta de entrada”, porque não existe porta. Sem privacidade, sem sexo. Perfeito para voyeurs, cucks e outros fetiches. Ondestão pensa na sua libido e fará você economizar fortunas com motel. Além disso, os serviços de cafetinagem ficam bem mais fáceis, com os trabalhos de quatro profissionais do sexo podendo ser coordenados ao mesmo tempo. Com sorte, você chegará tão cansado de seu trabalho que vai desabar na cama e nem terá energias para se preocupar com esses detalhes.
  • Fachada amarela, janelas brancas: exclusivo para desempregados, indigentes e pessoas sem intenções reprodutivas, respectivamente. Todos os corredores devem possuir espelhos, para que os moradores possam detectar a aproximação da polícia e se livrar com facilidade de substâncias ilícitas e outros tipos de flagrante, empenhando-se assim em economizar recursos públicos destinados à segurança pública. Esses imóveis não possuem aluguel nem água corrente, e cada morador deve custear uma pequena taxa para usar as bombas injetoras disponíveis no imóvel. Não possuem energia elétrica, também, possuindo toques de recolher organizados pelos próprios moradores. Sem energia elétrica, menos oportunidades para vadiagem. Pessoas que desrespeitam esse toque de recolher terão que passar a noite ao relento, já que apenas a porta da frente do prédio possui chave, de uso exclusivo do síndico, e as portas de cada unidade só trancam por dentro: moradores são proibidos de instalar miolos de chave e só podem usar travas de porta do lado de dentro da habitação. O que facilita as batidas policiais na ausência prolongada do morador.
  • Fachada verde, janelas azuis: exclusivo para famílias e pessoas com intenções reprodutivas, respectivamente. Prédios carinhosamente apelidados de unidades Gattaca, com aluguéis a preços tabelados. Os dois quartos devem obrigatoriamente ser visualizados dois dois outros cômodos, respectivamente. A ideia é que os pais possuam controle preciso sobre a vida sexual de seus filhos adolescentes, mantendo relatórios com registros minuciosos da quantidade de parceiros, frequência do coito, duração deste, uso do preservativo, traços genéticos desejados, entre outros. A constante tensão entre pais ou filhos serem flagrados em atos íntimos fará com que todos pensem duas vezes antes de se entregarem à intimidade com seus parceiros, além de destabuizar o assunto sexo. Um controle preciso sobre os hábitos reprodutivos dos seus. Se for o caso de um dos herdeiros possuir tendências a gostar do mesmo sexo, logo se descobrirá e a conversa sobre isso se tornará mais fácil.

Marcando criminosos (ou não) como semoventes

Embora a ideia inicial dessas moradias populares não seja a de exigir pesquisa socioeconômica com os antecedentes criminais dos locatários, nossos melhores especialistas em cibersegurança estão trabalhando em um revolucionário dispositivo para informar aos cidadãos de bem da proximidade de criminosos, condenados ou não. Ao passo que muitos países estigmatizam essas pessoas com a famigerada tornozeleira eletrônica, facilmente adulterável, chegamos à solução de design perfeita: a pescoceira eletrônica.

Com ela, nossos sensores poderão usar e abusar da internet das coisas para obter dados constantes que facilitem eventuais condenações dos tipos indesejados. Timbres de voz altos demais, irregulares demais, nervosos demais, tudo isso pode ser usado para criar o perfil do cidadão e suas características psicológicas. Até os padrões da respiração podem ser capturados para emitir alertas laranja para as autoridades, sugerindo que a alteração na inspiração e na expiração pode indicar a iminência de cometimento de crime, ou o efetivo cometimento deste. O dispositivo pode ainda funcionar como uma laringe eletrônica, emitindo deliciosos suspiros e grasnos robóticos e metálicos para que seja impossível ninguém notar a aproximação de sujeitos assim. Ainda está sendo discutido se o volume dessa voz eletrônica deve ou não superar o da fala cotidiana.

Estamos tão otimistas com a eficácia desta tecnologia patenteada que estamos em tratativas com o Poder Judiciário para, em processos de pequenas causas cujas partes se neguem a entrar em acordo, obrigar ambas as partes a usarem a pescoceira até se entenderem. Nada como um pouco de humilhação pública para adubar a diplomacia entre pessoas comuns. Será lindo ver discussões entre vizinhos, pessoas no trânsito, parlamentares e outros, permeadas por vozes robóticas.

Imagem gerada com IA. Soluções de design mais atraentes para o futuro não são descartadas.

E é claro que nosso sistema de saúde não ficaria de fora, querendo ser beneficiada pelas licitações desses aparelhos. Parece que é como dizem: é preciso quebrar ovos para se fazer uma omelete. Vai entender por que pobres querem tanta qualidade de vida assim…

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