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Regras de zoneamento de Ondestão

Porque aqui não é bagunça, não.

Distribuidoras de bebidas: só podem ser abertas em locais sem avenidas em um raio de 1000 metros de sua localização. Só podem abrir das 14h às 15h 30, não podem ter geladeiras, nem gelo nem vender bebidas geladas e não pode contratar funcionários: máquinas devem ser fornecidas e configuradas para vender sem nenhuma interação humana. A modalidade online de venda é proibida por se entender que estimula a prevalência do alcoolismo na sociedade: se ninguém vende armas em aplicativos de Android, por que permiti-lo para bebidas? (Leia mais: Ondestão bane Zé delivery) O que seria pedir demais de pessoas dispostas a se embebedar de madrugada. A travessa em que forem localizadas não pode ter mais que dois metros de largura e deve conter chicanes feitas com jardim. Caso o proprietário alegue não possuir recursos para investir nestas adequações, pode se eximir desta exigência instalando o ponto em um distrito da luz vermelha. Faz sentido: certos trabalhos geralmente são exercidos com altas doses do produto que vendem. E não se precisa de chicane em locais assim, já que os potenciais clientes, por natureza, reduzem a velocidade para verificar mais de perto o que vão consumir.

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Chicane#/media/Ficheiro:One-lane_chicane_1.jpg

Postos de gasolina: em busca de iniciativas sustentáveis, Ondestão também restringe bastante as opções de localização destes. Não podem ser abertos em esquinas nem próximos a rotatórias. E para combater a pesada herança escravagista que faz com que muitos clientes exijam ser atendidos por frentistas, são proibidos de contratá-los: todos saem ganhando. Economia com processos decorrentes de acidentes trabalhistas, conscientização do cliente de que este não precisa ser servido o tempo todo, entre outros. A exemplo de cidades como Brasília, só podem ser abertos em canteiros centrais de avenidas. Proprietários do Saci recebem 10% de desconto por meio de um subsídio do governo.

Casas de festas: todas devem contar com chicanes de pedestres ao longo de 200 metros antes da entrada. Ondestão promove o aquecimento da economia informal, permitindo aos ambulantes vender tudo quanto é tipo de porcaria antes que os clientes dessas casas possam evitá-los entrando no estabelecimento. Se o local for de grandes proporções e receber show nacionais ou internacionais, os lugares na fila podem ser alugados por flanelinhas cadastrados nas prefeituras. Quem disse que não dá para dar um jeito de o legislador cobrar impostos diante da informalidade?

Prédios residenciais: só podem ter elevador se tiverem mais de dez andares. Ondestão vem combatendo o sedentarismo de sua população, e limitar a instalação de amenidades como elevadores ajuda nesta relevante política pública. O combate à divisão de classes se faz presentes nessas instalações: elevadores não podem ser divididos em social ou de serviço, como nosso vizinho escravocrata faz. E todos os condomínios são obrigados a instalar um painel eletrônico, em local visível a todos os moradores, exibindo os nomes dos inadimplentes. Possuem, apesar disso, permissão para alugar esse espaço eletrônico para anúncios de empréstimo consignado. Não somos monstros.

Bancos: devem ser abertos próximos a pelo menos uma igreja em um raio de 500m, a fim de facilitar os deslocamentos dos fiéis para obter consignados para pagamentos de seus dízimos.

Estacionamentos: não existem. As cidades de nossa gloriosa nação estão com espaços cada vez mais contados, e para devolver a cidade às pessoas, nenhum prédio com mais de cinco andares pode ser construído com estacionamento. Os veículos não podem estacionar paralelos às calçadas, também: ruas residenciais devem possuir, no máximo, 2 metros de largura, e mesmo as vias de dimensões maiores devem possuir guard rails para dificultar a saída do motorista do veículo.

Hospitais: devem ser construídos com a fachada cercada de telões exibindo as mais escabrosas e nojentas pústulas, infecções e doenças, para que o cidadão pense duas vezes antes de se envolver em comportamentos de risco. Sífilis, amputações, crises de abstinência, lavagens estomacais, escaras, acidentes de trânsito, fraturas expostas, tudo está liberado para ser exibido. Junto às imagens, deve ser exibido o valor dos procedimentos médicos sem cobertura de planos de saúde. As recepções, em vez de apenas avisos sonoros com senhas, devem entremeá-los reproduzindo áudios com tosses, gemidos, gritos e outras manifestações visuais de dor de ex-pacientes, para que as pessoas tenham tempo de ponderar se estão doentes o bastante para estarem ali. E os plantonistas devem, nas portas de seus consultórios, exibir o histórico escolar de suas faculdades, para que os populares possam saber exatamente o grau de inexperiência do playboy recém-formado que os atenderá às 2 da manhã por causa de uma pneumonia de seus filhos de colo.

Igrejas: devem possuir acessos de acordo com o grau de pecado de seus fiéis. Pessoas com deficiência, indigentes, pedintes, sem réu primário ou usando pescoceira eletrônica devem acessar um vestíbulo específico entrando por um retângulo lateral à porta principal cujo acesso só é possível se movendo ajoelhado. O trajeto é coberto de milho por meio metro de extensão. E na nave principal, o local deve ser mantido no escuro completo, para que os fiéis tenham uma dimensão sensorial de como são pecadores irremediáveis e que nunca sairão das trevas enquanto viverem, para que anseiem o encontro com o senhor o quanto antes. Para relembrarem da lição de dar a outra face, um lanterninha deve circular pelas cátedras e dar um tapa, aleatoriamente, em um fiel. Após o sermão do padre, este convida um fiel para ler o trecho da Bíblia que será comentado, que deve subir ao púlpito após ter um cilício preso ao corpo. O efeito psicológico de dezenas de pessoas ouvindo aqui, entremeado com os gemidos do leitor, é inesquecível. Ao final da missa, terá um quadro com seu rosto afixado na parede lateral ao altar, no rol dos destaques do mês, ora chamado de ‘prediletos da fé’. É importante estimular a competição de fé, para que os mais sofridos e machucados na carne mostrem estar mais próximos do reino dos céus. Seja lá o que isso signifique. A melhor penitência não é a que dói no corpo, mas a que dói na vontade. Então, a obediência é a melhor penitência. Pense nesse sofrimento infligido à carne como um esporte radical que precisa de autorização de seu líder espiritual. Pessoas com limitações de saúde podem trocar o cilício por outras práticas: ninfomaníacos podem fazer a leitura enquanto uma jovem nua fica à sua frente; um alcoólatra pode fazê-lo enquanto uma caixa de cerveja está no chão, inerte; um fumante inveterado pode receber marcas e cigarro de um terceiro enquanto ora… as possibilidades são infinitas.

Venha sofrer comigo, todos os influenciadores estão fazendo.

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