Hoje vamos trazer um conceito que une inclusão, conveniência e afeto. Aqui vai um modelo de negócio completo, direto e inovador para o restaurante:
🍽️ Nome do Conceito:
“Caranguejo não é peixe” (ou “Farmer in the dell”, se quiser algo mais internacional e moderno)
🎯 Proposta de Valor
Um restaurante exclusivo para famílias com crianças menores de idade, que oferece:
Comida de alta qualidade, mas com ambiente acolhedor e descontraído. Frutas, proteínas e outros fatiados em pedaços minúsculos para a adequada ingestão pelos bebês.
Estrutura pensada para o bem-estar de pais e filhos, com vagas em diagonal para os carrinhos, adjacentes às mesas.
Experiência gastronômica sem julgamentos, sem olhares tortos e sem estresse.
👨👩👧👦 Público-Alvo
Pais e mães de crianças de 0 a 12 anos.
Famílias modernas que valorizam conforto, praticidade e um ambiente “child-friendly”. Não serem julgados por manter o pequeno quieto com telas demais é um destaque.
Profissionais de classe média e média-alta que costumam evitar restaurantes finos por falta de estrutura infantil.
🧩 Diferenciais Competitivos
Entrada exclusiva para famílias com filhos – reforça o pertencimento. O maître não chama os clientes pelo nome dos adultos, mas pelo das crianças. E as conduz para sua mesa dentro de um carrinho de shopping.
Espaços temáticos e seguros:
Área “bebê” (com trocadores, amamentação e papinhas). Certas misturas preparadas para mamadeiras disponíveis no cardápio.
Mini playground visível das mesas.
Área “criança maior” com jogos educativos e monitores.
Esteira com pratos já prontos, para acalmar as crianças mais barulhentas. Com taxa de 20% sobre o preço do prato.
Área P.I. (produção independente): um salão mais escuro, de atmosfera mais discreta, para as mães solteiras comerem com seus pequenos. Uma estátua de gesso do Galo Carijó recebe a todos de braços abertos, com músicas da Maria Betânia para não criar uma atmosfera disruptiva. Detalhe: a saída dessa área fica do outro lado do salão, para que as mães não sejam vistas pelos outros comensais.
Menu duplo:
“Menu dos Grandes” (gastronomia de verdade, não só hambúrguer e batata frita).
“Menu dos Pequenos” (saudável, divertido e adaptado à idade).
Lanche feliz: a exemplo do McLanche feliz, com a diferença de que os brindes não são vendidos separadamente. As crianças mais velhas devem mostrar o prato e o copo vazios ao garçom para receber um cupom que dá direito a entrar na Pokébola, salão com um balão que é estourado a cada hora, com bonecos de Naruto e outras franquias famosas de brinde. Se chegar a tempo, talvez pegue um brinde; se demorar demais, pode ser empurrado por uma criança maior e sair de mãos vazias. Nossa marca molda caráter.
Serviço rápido e silencioso: garçons treinados para lidar com famílias e crianças pequenas.
Tecnologia discreta: QR code para fazer pedidos direto da mesa. Para facilitar a vida dos pais que precisam correr atrás das crianças mais travessas, um sistema de fichas será providenciado. Não retornável.
💰 Modelo de Receita
Venda direta de refeições.
Planos de fidelidade:
Desconto para famílias frequentes que sujem menos as mesas.
“Clube dos Pequenos” com brindes educativos mensais.
Eventos e aniversários: pacotes para festas infantis “sem gritaria”, com ambientação natural e culinária saudável.
Loja anexa: brinquedos educativos, roupas infantis e produtos para bebês com curadoria.
🏗️ Infraestrutura Ideal
Térreo amplo e sem degraus (facilita carrinhos).
Cadeiras de alimentação em todas as mesas.
Cantinho silencioso para cochilos.
Isolamento acústico e iluminação suave.
Localização: bairros residenciais de classe média-alta ou próximos a parques/escolas.
📣 Marketing e Posicionamento
Slogan: “Papá pá cumê.” Canais de divulgação:
Parcerias com pediatras, escolas e creches.
Influenciadores “parenting” e blogs familiares.
Programas de fidelidade via app.
Eventos temáticos: “Noite dos Contos”, “Mini Chefs”, “Cinema com Jantar”.
👣 Expansão Futura
Franquias em capitais e cidades médias.
Linha de produtos com a marca (papinhas, brinquedos educativos, molhos artesanais, bonecos pequenos que caibam na orelha para incentivar o asseio do pequeno).
Parceria com delivery focado em famílias (entregas com kit infantil e surpresa).
⚙️ Resumo do Modelo (Canvas Simplificado)
Bloco
Descrição
Proposta de Valor
Restaurante acolhedor e gastronômico exclusivo para famílias com crianças.
Segmento de Clientes
Pais com filhos de 0 a 12 anos.
Canais
Presencial, delivery, redes sociais, app próprio.
Relacionamento
Experiência personalizada, programas de fidelidade.
Fontes de Receita
Refeições, eventos, fidelidade, loja anexa.
Recursos-Chave
Espaço adaptado, equipe treinada, cardápio infantil e adulto.
Distribuidoras de bebidas: só podem ser abertas em locais sem avenidas em um raio de 1000 metros de sua localização. Só podem abrir das 14h às 15h 30, não podem ter geladeiras, nem gelo nem vender bebidas geladas e não pode contratar funcionários: máquinas devem ser fornecidas e configuradas para vender sem nenhuma interação humana. A modalidade online de venda é proibida por se entender que estimula a prevalência do alcoolismo na sociedade: se ninguém vende armas em aplicativos de Android, por que permiti-lo para bebidas? (Leia mais: Ondestão bane Zé delivery) O que seria pedir demais de pessoas dispostas a se embebedar de madrugada. A travessa em que forem localizadas não pode ter mais que dois metros de largura e deve conter chicanes feitas com jardim. Caso o proprietário alegue não possuir recursos para investir nestas adequações, pode se eximir desta exigência instalando o ponto em um distrito da luz vermelha. Faz sentido: certos trabalhos geralmente são exercidos com altas doses do produto que vendem. E não se precisa de chicane em locais assim, já que os potenciais clientes, por natureza, reduzem a velocidade para verificar mais de perto o que vão consumir.
Postos de gasolina: em busca de iniciativas sustentáveis, Ondestão também restringe bastante as opções de localização destes. Não podem ser abertos em esquinas nem próximos a rotatórias. E para combater a pesada herança escravagista que faz com que muitos clientes exijam ser atendidos por frentistas, são proibidos de contratá-los: todos saem ganhando. Economia com processos decorrentes de acidentes trabalhistas, conscientização do cliente de que este não precisa ser servido o tempo todo, entre outros. A exemplo de cidades como Brasília, só podem ser abertos em canteiros centrais de avenidas. Proprietários do Saci recebem 10% de desconto por meio de um subsídio do governo.
Casas de festas: todas devem contar com chicanes de pedestres ao longo de 200 metros antes da entrada. Ondestão promove o aquecimento da economia informal, permitindo aos ambulantes vender tudo quanto é tipo de porcaria antes que os clientes dessas casas possam evitá-los entrando no estabelecimento. Se o local for de grandes proporções e receber show nacionais ou internacionais, os lugares na fila podem ser alugados por flanelinhas cadastrados nas prefeituras. Quem disse que não dá para dar um jeito de o legislador cobrar impostos diante da informalidade?
Prédios residenciais: só podem ter elevador se tiverem mais de dez andares. Ondestão vem combatendo o sedentarismo de sua população, e limitar a instalação de amenidades como elevadores ajuda nesta relevante política pública. O combate à divisão de classes se faz presentes nessas instalações: elevadores não podem ser divididos em social ou de serviço, como nosso vizinho escravocrata faz. E todos os condomínios são obrigados a instalar um painel eletrônico, em local visível a todos os moradores, exibindo os nomes dos inadimplentes. Possuem, apesar disso, permissão para alugar esse espaço eletrônico para anúncios de empréstimo consignado. Não somos monstros.
Bancos: devem ser abertos próximos a pelo menos uma igreja em um raio de 500m, a fim de facilitar os deslocamentos dos fiéis para obter consignados para pagamentos de seus dízimos.
Estacionamentos: não existem. As cidades de nossa gloriosa nação estão com espaços cada vez mais contados, e para devolver a cidade às pessoas, nenhum prédio com mais de cinco andares pode ser construído com estacionamento. Os veículos não podem estacionar paralelos às calçadas, também: ruas residenciais devem possuir, no máximo, 2 metros de largura, e mesmo as vias de dimensões maiores devem possuir guard rails para dificultar a saída do motorista do veículo.
Hospitais: devem ser construídos com a fachada cercada de telões exibindo as mais escabrosas e nojentas pústulas, infecções e doenças, para que o cidadão pense duas vezes antes de se envolver em comportamentos de risco. Sífilis, amputações, crises de abstinência, lavagens estomacais, escaras, acidentes de trânsito, fraturas expostas, tudo está liberado para ser exibido. Junto às imagens, deve ser exibido o valor dos procedimentos médicos sem cobertura de planos de saúde. As recepções, em vez de apenas avisos sonoros com senhas, devem entremeá-los reproduzindo áudios com tosses, gemidos, gritos e outras manifestações visuais de dor de ex-pacientes, para que as pessoas tenham tempo de ponderar se estão doentes o bastante para estarem ali. E os plantonistas devem, nas portas de seus consultórios, exibir o histórico escolar de suas faculdades, para que os populares possam saber exatamente o grau de inexperiência do playboy recém-formado que os atenderá às 2 da manhã por causa de uma pneumonia de seus filhos de colo.
Igrejas: devem possuir acessos de acordo com o grau de pecado de seus fiéis. Pessoas com deficiência, indigentes, pedintes, sem réu primário ou usando pescoceira eletrônica devem acessar um vestíbulo específico entrando por um retângulo lateral à porta principal cujo acesso só é possível se movendo ajoelhado. O trajeto é coberto de milho por meio metro de extensão. E na nave principal, o local deve ser mantido no escuro completo, para que os fiéis tenham uma dimensão sensorial de como são pecadores irremediáveis e que nunca sairão das trevas enquanto viverem, para que anseiem o encontro com o senhor o quanto antes. Para relembrarem da lição de dar a outra face, um lanterninha deve circular pelas cátedras e dar um tapa, aleatoriamente, em um fiel. Após o sermão do padre, este convida um fiel para ler o trecho da Bíblia que será comentado, que deve subir ao púlpito após ter um cilício preso ao corpo. O efeito psicológico de dezenas de pessoas ouvindo aqui, entremeado com os gemidos do leitor, é inesquecível. Ao final da missa, terá um quadro com seu rosto afixado na parede lateral ao altar, no rol dos destaques do mês, ora chamado de ‘prediletos da fé’. É importante estimular a competição de fé, para que os mais sofridos e machucados na carne mostrem estar mais próximos do reino dos céus. Seja lá o que isso signifique. A melhor penitência não é a que dói no corpo, mas a que dói na vontade. Então, a obediência é a melhor penitência. Pense nesse sofrimento infligido à carne como um esporte radical que precisa de autorização de seu líder espiritual. Pessoas com limitações de saúde podem trocar o cilício por outras práticas: ninfomaníacos podem fazer a leitura enquanto uma jovem nua fica à sua frente; um alcoólatra pode fazê-lo enquanto uma caixa de cerveja está no chão, inerte; um fumante inveterado pode receber marcas e cigarro de um terceiro enquanto ora… as possibilidades são infinitas.
Venha sofrer comigo, todos os influenciadores estão fazendo.
Nossa cúria sente que o aparato administrativo de nosso glorioso país ainda possui traços de pessoalidade excessivos, e vem deliberando medidas para mitigar essa mania da humanidade de avisar o tempo todo que mijou nos lugares primeiro.
Em primeiro lugar, Ondestão quer banir os nomes pessoais. Os três primeiros dígitos do número de identidade de cada cidadão passaria a ser seu nome. O autor deste artigo, por exemplo, passaria a ser o 718. Sonoro, não? De qualquer forma, é uma medida que tornariam os cartórios imunes a nomes da moda, como Enzos, Valentinas, Pietras e Noahs, e ainda combateria os anglicismos e outros empréstimos não solicitados de outras culturas imperialistas, blindando Ondestão de ser imerso em referências pop pobres. Países como Portugal, Cuba ou Islândia possuem listas com os nomes permitidos, mas não somos ditadores: não vamos obrigar ninguém a escolher este ou aquele nome; vamos apenas nos referir a cada cidadão pelo que ele sempre foi, um número. Nossos parlamentares chegaram a pensar em, seguindo medidas sustentáveis, não imprimir mais os documentos de identidade e imprimir os números por meio de tatuagens nos antebraços dos cidadãos, mas ainda é dúvida se esta sugestão avançará pelas comissões do Senado: alegam que esta medida pode ser comparada a antissemitismo e a uma certa guerra distante que aconteceu naquele distante continente onde um terço da população morria no passado por não lavar as mãos. Os acordos assinados por essa turma dos direitos humanos dificultam o trabalho do legislador.
Banir nomes de pessoas, vivas ou mortas, de lugares públicos seria o próximo passo. Se uma via pública tem nome de político, padre ou general, por exemplo, uma coisa é certa: este indivíduo matou e roubou bastante para ter esse direito de ter suas frágeis existências e egos eternizados em um pedaço de via pública de 200 m de extensão pavimentado com asfalto barato, casca de ovo. Os nomes poderiam ser substituídos por referências mais objetivas, como o código postal. Fazendo paralelo com nosso vizinho tupiniquim, um bairro poderia ser chamado de, por exemplo, 78065, e uma determinada porção do bairro, incluindo as ruas, de 245. Para tornar o sistema menos árido no cotidiano, as comissões discutem a possibilidade de importar uma adaptação do sistema postal do reino unido, que usa letras com números. Além disso, para fins de se criar consciência histórica na população, a legislação teria que exigir do gestor público a instalação de alçapões públicos com escotilhas de aço, ao lado de estátuas dos líderes que outrora nomeavam a via pública. A ideia seria, para fins didáticos, escolher infratores registrados pela ROBOCOP (Ronda dos Bons Costumes Policial), flagrados usando os nomes antigos das vias, para serem trancados nestes locais por 24 horas, sem água nem comida. Os alçapões, de preferência, devem ser instalados nas saídas de escolas, igrejas, diretórios políticos, sindicatos e outros lugares que geram aglomerações, para que, durante a circulação de pessoas, o terror dos gritos da pobre alma trancafiada neste lugar degradante tenha a função didática de banir das mentes da coletividade quaisquer indícios da existência dos déspotas do passado. Denúncias anônimas, infundadas ou não, seriam incentivadas. Nada como o pânico para manter um populacho dócil. Dizem que a Mongólia faz isso com seus adúlteros nas vilas mais remotas, mas seria terror demais cuidar do genital alheio.
Individualidade não é incentivada em nossa gloriosa nação, e as cores das roupas são rigorosamente fiscalizadas pela ROBOCOP. Apenas tons de cinza podem ser usados, e os tons autorizados seguem uma escala oficial que deve ser afixada nas fachadas de todas as lojas de roupas. E, ao centro das camisas, camisetas, blusas, vestidos, tops, sobretudos e outras peças de vestuário, uma letra bem visível deve identificar o perfil do cidadão:
A: adúltero; B: bigotismo (para não doadores do valor mínimo de dízimo de sua designação religiosa ou àqueles que não frequentam uma igreja ou templo há mais de três meses, o que é passível de comprovação com um cartão carimbado na paróquia do fiel);
C: canhoto; Cg: cigano; D: daltônico; E: esquizofrênico (usado na ausência de laudo médico que ateste o contrário); F: flâneur (propensão reduzida a procriar);
G: golddigger (pessoa em relacionamento com diferença de idade superior a 15 anos)
Mc: estourou a margem do consignado; P: bate palmas pro pôr-do-sol; Rp: não possui mais o réu primário; V: vegano.
E uma medida revolucionária vem deixando o mercado nervoso. Sim, sempre ele: Ondestão quer adotar cédulas específicas para a classe social de quem a usa. Para quê? Para rastrear a origem do dinheiro que circula no mercado com mais facilidade, e para garantir que a informalidade não devore toda a riqueza gerada pelos negócios legais de Ondestão. Por exemplo, se um cidadão de classe baixa junta um milhão de dinheiros e deseja comprar uma Porsche, o revendedor que aceitar o dinheiro terá que se explicar às instituições financeiras como um cidadão de baixa renda, trabalhando honestamente, foi capaz de pagar tudo aquilo por aquele bem. Outra medida, mais passivo-agressiva, consiste em imprimir, nas notas, a atual taxa de juros. E quanto aos cidadãos de classe média ou ricos, você se pergunta. Esses usam cédulas com o valor do IOF impressas e das operações financeiras isentas de IR. Mais importante do que manter nossos amigos ricos ricos, é manter nossos amigos de classe média média o suficiente para acharem que são ricos e simpatizarem mais com nossas políticas mais impopulares. Ainda analisamos com carinho a possibilidade de alugar algumas cédulas para estampar os rostos de influenciadores que são patrocinados por bets, e devemos confessar que os lobistas da Imacubet são bem, digamos, convincentes.
Quanto aos nossos atletas, nos sentimos divididos: devemos estimular as diferenças entre o vigor físico de nossos cidadãos em nome de alguns breves momentos de glória sobre o tatame de arenas estrangeiras? Para combater isso e reservar o espírito competitivo para eventos internacionais, o ensino de educação física em Ondestão exige que todos pratiquem atividades físicas e participem de eventos esportivos nacionais em que sejam beneficiados as equipes e atletas que obtiverem empates, sempre empates. Mas você se pergunta: se os atletas são obrigados a empatar sempre, o que os motivaria a praticar esporte? Simples: se uma equipe de futebol, por exemplo, perde de 6 a 0 para o Regateiro, a partida segue normalmente, com a equipe líder tendo todos os próximos gols anulados, e só termina quando a equipe perdedora for capaz de empatar. Em esportes como vôlei, com número limitado a sets, caso uma equipe perca por 3 sets a 1, a equipe líder terá os pontos subsequentes automaticamente anulados até que a equipe perdedora seja capaz de empatar. Mais importante do que jogar ganhando é jogar perdendo, e Ondestão louva os perdedores, que persistem apesar das adversidades. Qualquer idiota pode vencer em um dia de sorte, mas só alguém com nervos de aço cansa a mente do adversário até este lhe conceder um empate. A vitória de Pirro está na alma do ondestanês.
A fim de aliviar os tensionamentos políticos, Ondestão vem integrando equipes de futebol à participação no teatro político. Já que nosso sistema caminha para o unipartidarismo e os lobistas dificilmente permitirão um ator das massas chegar a nossos espaços de poder, nada mais eficiente do que convencer populares vestindo camisas da mesma cor e se esgoelando por uma bola passando por entre traves de que eles têm voz. Fundos de pensão, as forças policiais obtendo permissão mais facilitada para atuar em áreas da cidade sob controle das torcidas… as possibilidades são infinitas. Poderíamos ficar anos sem concurso para as forças de segurança se convencêssemos esses zé-manés de que organizar milícias é uma boa ideia e que organizadas são muito mais eficientes para acompanhar o crescimento e a sensação de segurança de uma comunidade. O que é mais atrativo, um uniforme ou uma camisa de time com patrocínios de empresas fazendo greenwashing? Sem falar em adotar alguns jogadores para serem nossos embaixadores. Tem opção para tudo: para quem condena e para quem apoia o feminicídio, por exemplo. Poderíamos até substituir júris pelas torcidas nos estádios durante os clássicos. No intervalo do primeiro tempo, imagens de algum crime de grande comoção popular podem ser exibidas e a torcida pode ser conclamada a condenar ou poupar o acusado, no melhor estilo romano, apontando o polegar para cima ou para baixo. Ao passo que certos países organizam plebiscitos, acreditamos esta ser uma alternativa muito mais eficiente. Não interessa para nós liberar ou não o acesso às armas, nos interessa escolher o lado certo para que o povo nos esqueça durante nossas negociatas. E foi assim que deixamos o povo decidir. Que turba não teria o melhor juízo de valor quando entretida com seu pão e circo?
E, claro, notemos que a confecção das camisas de times são um raro respiro de liberdade diante do rigoroso dress code de Ondestão. Mais um motivo para irmos mais longe nesta associação cínica e fictícia entre apoiar uma equipe de futebol e liberdades civis.
Seu genital é nosso
O controle de natalidade também passa por nosso crivo: em vez da drástica política do filho único imposta pelos chineses, pensamos em uma saída pela tangente: um casal pode ter filhos, mas a quantia deve ser na mesma quantidade para ambos os sexos. Ou seja, se um casal tiver um menino, precisa providenciar uma menina. Quando a natureza não colaborar e um segundo menino chegar ao mundo, por exemplo, nossos legisladores pensaram em tudo: nesse caso, o casal fica obrigado a adotar ou, no mínimo, a apadrinhar duas meninas no orfanato mais próximo em, no mínimo, 10% da renda conjunta do casal por criança por mês. Diferentemente das legislações autoritárias de outros países, Ondestão permite exames para se descobrir o sexo da criança antes mesmo da concepção. E, de certa forma, funciona como uma forma de combater a baixa natalidade de nossa gloriosa nação. Sempre teremos casais sem TV em casa cujo homem é obcecado em ter um filho homem e enche a casa de meninas até seu sonhado menino sair. Se uma família tiver quatro meninas biológicas, por exemplo, o patriarca terá que adotar ou apadrinhar outros quatro meninos até seu menino biológico chegar. Todos saem ganhando: ganha a esposa, que tem a garantia de que boa parte da renda estará comprometida com as adoções ou apadrinhamentos, ganham os orfanatos, com mais rotatividade, e ganha a previdência pública, que pode postergar a próxima reforma. E mais uma coisa: caso o casal discorde de igualar o quantitativo de filhos e filhas na família, devem ser esterilizados compulsoriamente. Negar-se a isso pode acarretar em impedimento de concorrer a cargos públicos ou a ser enquadrado em crime previsto em nosso código penal, a procriação desproporcional.
Filhos gerados fora do casamento e sem pai conhecido devem ter esta informação registradas em seus nomes com a letra ‘B’ pelos tabeliões, para que não possuam direito ao casamento.
E não paramos por aí: Ondestão, na figura de seu Ministério das Cidades, vem combatendo o problema de falta de moradias matando dois coelhos com uma cajadada só. Equipes multidisciplinares com arquitetos, engenheiros, corretores de imóveis, entre outros, estão trabalhando na importante tarefa de dar um teto às pessoas e fazendo-as procriar.
Valendo-se da pré-fabricação, Ondestão não tem tempo a perder: painéis de concreto fabricados industrialmente são encaixados em um processo altamente automatizado, com a mão de obra no local praticamente eliminada pelo uso de guindastes e linhas de produção. Para quebrar a monotonia cinza dos programas habitacionais dos tempos soviéticos, os aluguéis são pré-fixados de acordo com a cor das fachadas. Não basta querer morar em uma dessas unidades; é preciso se encaixar nos critérios socioeconômicos estabelecidos por nossos gestores e devidamente registrados em cores.
Fachada vermelha, janelas brancas: exclusivo para solteiros e pessoas sem intenções reprodutivas, respectivamente. A entrada deve permitir a visualização de todos os quatro cômodos, conforme imagem acima: sala de estar, cozinha e dois quartos. A ideia é manter essas instalações exclusivas para a mão-de-obra barata que trabalha nas regiões mais centrais de nossas cidades. Repare que não dissemos “porta de entrada”, porque não existe porta. Sem privacidade, sem sexo. Perfeito para voyeurs, cucks e outros fetiches. Ondestão pensa na sua libido e fará você economizar fortunas com motel. Além disso, os serviços de cafetinagem ficam bem mais fáceis, com os trabalhos de quatro profissionais do sexo podendo ser coordenados ao mesmo tempo. Com sorte, você chegará tão cansado de seu trabalho que vai desabar na cama e nem terá energias para se preocupar com esses detalhes.
Fachada amarela, janelas brancas: exclusivo para desempregados, indigentes e pessoas sem intenções reprodutivas, respectivamente. Todos os corredores devem possuir espelhos, para que os moradores possam detectar a aproximação da polícia e se livrar com facilidade de substâncias ilícitas e outros tipos de flagrante, empenhando-se assim em economizar recursos públicos destinados à segurança pública. Esses imóveis não possuem aluguel nem água corrente, e cada morador deve custear uma pequena taxa para usar as bombas injetoras disponíveis no imóvel. Não possuem energia elétrica, também, possuindo toques de recolher organizados pelos próprios moradores. Sem energia elétrica, menos oportunidades para vadiagem. Pessoas que desrespeitam esse toque de recolher terão que passar a noite ao relento, já que apenas a porta da frente do prédio possui chave, de uso exclusivo do síndico, e as portas de cada unidade só trancam por dentro: moradores são proibidos de instalar miolos de chave e só podem usar travas de porta do lado de dentro da habitação. O que facilita as batidas policiais na ausência prolongada do morador.
Fachada verde, janelas azuis: exclusivo para famílias e pessoas com intenções reprodutivas, respectivamente. Prédios carinhosamente apelidados de unidades Gattaca, com aluguéis a preços tabelados. Os dois quartos devem obrigatoriamente ser visualizados dois dois outros cômodos, respectivamente. A ideia é que os pais possuam controle preciso sobre a vida sexual de seus filhos adolescentes, mantendo relatórios com registros minuciosos da quantidade de parceiros, frequência do coito, duração deste, uso do preservativo, traços genéticos desejados, entre outros. A constante tensão entre pais ou filhos serem flagrados em atos íntimos fará com que todos pensem duas vezes antes de se entregarem à intimidade com seus parceiros, além de destabuizar o assunto sexo. Um controle preciso sobre os hábitos reprodutivos dos seus. Se for o caso de um dos herdeiros possuir tendências a gostar do mesmo sexo, logo se descobrirá e a conversa sobre isso se tornará mais fácil.
Marcando criminosos (ou não) como semoventes
Embora a ideia inicial dessas moradias populares não seja a de exigir pesquisa socioeconômica com os antecedentes criminais dos locatários, nossos melhores especialistas em cibersegurança estão trabalhando em um revolucionário dispositivo para informar aos cidadãos de bem da proximidade de criminosos, condenados ou não. Ao passo que muitos países estigmatizam essas pessoas com a famigerada tornozeleira eletrônica, facilmente adulterável, chegamos à solução de design perfeita: a pescoceira eletrônica.
Com ela, nossos sensores poderão usar e abusar da internet das coisas para obter dados constantes que facilitem eventuais condenações dos tipos indesejados. Timbres de voz altos demais, irregulares demais, nervosos demais, tudo isso pode ser usado para criar o perfil do cidadão e suas características psicológicas. Até os padrões da respiração podem ser capturados para emitir alertas laranja para as autoridades, sugerindo que a alteração na inspiração e na expiração pode indicar a iminência de cometimento de crime, ou o efetivo cometimento deste. O dispositivo pode ainda funcionar como uma laringe eletrônica, emitindo deliciosos suspiros e grasnos robóticos e metálicos para que seja impossível ninguém notar a aproximação de sujeitos assim. Ainda está sendo discutido se o volume dessa voz eletrônica deve ou não superar o da fala cotidiana.
Estamos tão otimistas com a eficácia desta tecnologia patenteada que estamos em tratativas com o Poder Judiciário para, em processos de pequenas causas cujas partes se neguem a entrar em acordo, obrigar ambas as partes a usarem a pescoceira até se entenderem. Nada como um pouco de humilhação pública para adubar a diplomacia entre pessoas comuns. Será lindo ver discussões entre vizinhos, pessoas no trânsito, parlamentares e outros, permeadas por vozes robóticas.
Imagem gerada com IA. Soluções de design mais atraentes para o futuro não são descartadas.
E é claro que nosso sistema de saúde não ficaria de fora, querendo ser beneficiada pelas licitações desses aparelhos. Parece que é como dizem: é preciso quebrar ovos para se fazer uma omelete. Vai entender por que pobres querem tanta qualidade de vida assim…
Imagem meramente ilustrativa. Como aqueles videogames chineses com fotos de Forza Horizon na caixa, que só conseguem rodar Enduro.
Em nome do desenvolvimento da indústria nacional, e em paralelo com a priorização do transporte individual, Ondestão subsidia a Maraton, montadora de carros orgulhosamente nacional, sem os trocados do Ocidente vindo para cá. Com grandes projetos em fase de estudos, atualmente a Maraton conta com o Saci, o primeiro carro popular concebido para as massas. Massas, mesmo: tanto para o analfabeto quanto para o que não consegue amarrar os cadarços sozinho.
Com carroceria feita de Duroplast, um material composto por resina fenólica e algodão, o Saci ganha em leveza e em eficiência energética, fazendo com que caiba no bolso de todos os trabalhadores. Além disso, o Saci foi projetado para que o trabalhador tenha acesso a seu sustento, e para que o bandido não tenha meios eficientes para subtraí-lo do trabalhador: o tanque de combustível é reduzido, e a velocidade máxima não alcança os 100 km/h, pensando na saúde e no bem-estar no trabalhador, gerando economia no nosso sobrecarregado sistema de saúde e facilitando o trabalho das forças de segurança em coibir criminosos em fuga. Dizem que a pressa é inimiga da perfeição, e o Saci é a epítome disso em nossa indústria.
A folga do volante é de 9 voltas, para que o motorista pense duas vezes antes de fazer uma curva fechada ou entrar em um ponto cedo de uma ladeira. Isso garante a fluidez na direção e faz com que o motorista se sinta um com o carro, fazendo com que o veículo desenvolva um movimento lento e fluido como as águas de um lago após um garoto lançar um xisto sobre sua superfície. Tudo isso sem esquecer da esportividade: assim como os carros stock, todo o plástico e o forro encontrados nos carros pretensamente burgueses do Ocidente não se fazem presentes aqui. O aço cru das portas, do painel e do interior é aparente, para que o consumidor tenha mais facilidade em detectar as avarias do veículo e as conserte em momento oportuno. Nada de acolchoado barato, forro do teto que mancha mais que grelha de exaustor de cozinha, e de plástico duro.
Como cortesia, o cliente leva um rolo de arame, uma chave de fenda e uma garrafa PET vazia para reparos ocasionais.
Já éramos minimalistas no desigm antes de ser modinha!
Ficha técnica
Mecânica
Motorização
Dois tempos, refrigerado a ar, com dois cilindros e 600 cm³ de cilindrada, produzindo cerca de 26 cavalos de potência. Usa apenas gasolina como combustível.
Potência (cv)
30
Torque (kgf.m)
6
Velocidade Máxima (km/h)
88
Tempo 0-100 (s)
∞
Consumo cidade (km/l)
8,2
Consumo estrada (km/l)
8,9
Câmbio
manual de 4 marchas
Tração
dianteira
Direção
manual
Suspensão dianteira
Suspensão tipo McPherson e dianteira com barra estabilizadora, roda tipo independente e molas helicoidal (item opcional). Conta com molas de lâminas semi-elípticas.
Suspensão traseira
Suspensão tipo eixo de torção, roda tipo semi-independente e molas helicoidal.
Freios
N/D
Dimensões
Compacto, o Saci é perfeito para os ambientes mais inóspitos e desafiadores. Apesar do tanque de combustível pequeno, atinge enormes distâncias nas mãos de um hábil motorista. O tanque localiza-se sob o capô, emaranhado entre o motor, os cabos e as outras traquitanas de um veículo, sem acesso fácil pelo cliente, e não existe um medidos de combustível. Tudo isso pensado para despertar a consciência ecológica no usuário e promover a sustentabilidade: com o Saci, não tem essa de usuários dirigindo na fé, buscando obter até a última gota de rendimento antes da próxima pane seca. O Saci não presenteia os avarentos, e possui uma pequena ampulheta embutida próximo às hastes de metal sobre o sistema de som, que dá ao motorista uma noção temporal suficiente para a próxima passagem pelo posto de combustível. Sem falar no apoio à classe dos taxistas, que nem taxímetro precisam adquirir. Nosso governo é como um pai para o trabalhador.
Altura (mm)
1.502
Largura (mm)
1.442
Comprimento (mm)
2.620
Peso (Kg)
630
Tanque (L)
25
Entre-eixos (mm)
2.376
Porta-Malas (L)
250
Ocupantes
Coração de mãe
Segurança
Priorizando a essência do prazer de dirigir, o Saci não possui airbags, que são caros de instalar e são opcionais em nossa legislação. Quem confiaria em um saco de ar lançado sobre a própria cara a mais de 320 km/h? Estão querendo proteger ou asfixiar os clientes? Ondestão pensa em você, e providencia medidas mais visíveis de proteção à sua integridade física.
airbag motorista
kkkkk
alarme
Som automotivo que anuncia, a 50 dB, os anunciantes que subsidiam o preço do Saci ao menor toque de estranhos antes da desativação do alarme. Entre os anúncios, infomerciais do governo, propagandas de bebida, de tabaco e de remédios tarja-preta.
freios ABS
airbag passageiro
Capacetes de série
airbag lateral
Capacetes de série
controle de tração
distribuição eletrônica de frenagem
Que diabos é isso?
Conforto
ar-condicionado
Não tem. A Maraton reforça seu compromisso com a sustentabilidade.
travas elétricas
Luxo pequeno-burguês. Gire a chave ou aperte o lacre na porta.
ar-quente
Fornecido pela combustão do veículo.
piloto automático
Pare em local proibido e aguarde o guincho, eis seu piloto automático.
volante com regulagem de altura
Não tem. Ondestão prioriza um estilo de vida mais saudável e mantém o volante em altura fixa suficiente para que apenas magros consigam dirigir. Se você não cabe em um Saci, vá a pé ao trabalho até caber.
trio eletrico
O que o Carnaval tem a ver com as especificações do Saci?
Som
CD player
CD player com MP3
Entrada USB
A única disponível. Ondestão combate as rádios piratas e previne mensagens ideológicas demais nas programações musicais medíocres das rádios. Saci não toca rádio.
Rádio FM/AM
Kit Multimídia
Bancos
bancos de couro
ajuste de altura
ajuste elétrico
Não tem
Janelas
vidros elétricos dianteiros
Use a manivela para abrir o vidro.
desemb. traseiro
teto solar
Nossas concessionárias alugam a Makita necessária para abrir espaço no teto com um desconto super especial.
vidros elétricos traseiros
Use a manivela.
portas (versão de metal opcional)
A malha das portas é feita de um material resistente e flexível, geralmente net (rede) ou mesh (malha), que permite a passagem de ar e evita que detritos entrem no habitáculo. Se a princesinha quiser uma porta que faça parte da carroceria, pague a mais.
Outros
computador de bordo
Temos tela demais em nossas vidas, então não. Não temos.
sensor de farol
Não
farol de neblina
Já contamos que as seguradoras usam como critérios adesivos irônicos assim para negar cobertura? Ou ainda é cedo demais?
Preocupadas com os alarmantes índices de divórcio e de natalidade, as autoridades de Ondestão decidiram agir e, após longas discussões nas comissões do Congresso, foram promulgadas algumas emendas ao Código Civil para repensar a lógica do casamento. Adotando o conceito de gamificação, convencionou-se adotar algumas regras:
Passaporte
Para obter um passaporte, o cidadão deve preencher um formulário online no site da Polícia Federal, pagar a taxa, agendar um atendimento presencial, comparecer com os documentos necessários e, finalmente, retirar o passaporte na unidade da PF. O processo envolve etapas tanto online quanto presenciais. Passos detalhados:
Preenchimento do formulário online: Acesse o site da Polícia Federal e preencha o formulário eletrônico de solicitação de passaporte. Não deixe de preencher informações relevantes, como tamanho do genital, contagem de esperma no sêmen, data da vasectomia ou histerectomia (se houver) e body count (nomes e quantidade de parceiros(as) anteriores ao(à) parceira com quem deseja-se contrair patrimônio por meio do visto. Se um dos cônjuges comprovar que um nome está faltando por meio de fotos ou outros indícios, o visto pode ser cancelado;
Pagamento da taxa: Após o preenchimento do formulário, será gerada uma GRU (Guia de Recolhimento da União) para pagamento da taxa. O pagamento pode ser feito por meio de PIX, cartão de crédito ou boleto.
Agendamento do atendimento: Com o pagamento confirmado, agende o atendimento presencial em uma unidade da Polícia Federal.
Atendimento presencial: Compareça à unidade da PF no dia e horário agendados, levando todos os documentos necessários, como identidade, título de eleitor, comprovante de pagamento da taxa e, se for o caso, documentos específicos.
Retirada do passaporte: Após o processamento da solicitação, o passaporte estará disponível para retirada na mesma unidade da PF onde o atendimento foi realizado. Observações importantes: Menores de idade: Menores de 16 anos devem estar acompanhados por um dos pais ou responsável legal, munido do boletim escolar mais recente. Sem educação mínima para aceitar empregos precarizados na indústria para sustentar a família, melhor nem começar. Validade do passaporte: varia de acordo com a idade do solicitante. Para maiores de 18 anos, a validade é de 10 anos. Casos de urgência: Em casos de comprovada necessidade de passaporte em prazo inferior ao usual, é recomendado entrar em contato com a unidade da PF para verificar a possibilidade de atendimento prioritário.
Obtenção dos carimbos
Antes de terem autorização para se casarem, o casal deve obter uma série de carimbos preliminares. Vamos a eles:
Carimbo do livro aberto: o casal deve agendar, no cartório de sua preferência, uma data para concessão desse carimbo. Mas a data não será informada ao casal; fica registrada de forma sigilosa no banco de dados do cartório, que vai convocar o casal de forma aleatória, devendo estes se apresentarem em até 24 horas diante do tabelião. Diante deste, cada um entrega seus celulares e tudo dentro dos aparelhos será periciado e mostrado uns aos outros. Muitos profissionais alegam que este procedimento é muito útil para que os casais conheçam suas idiossincrasias e pequenas indiscrições que, sem esta intervenção, levariam anos para virem à tona. Ainda que ambos decidam continuar com o pedido de concessão do carimbo após descobrirem algo grave, como um adultério ou um filho não registrado, terão o pedido cancelado e devem fazer novo agendamento.
Carimbo da quebra do sigilo bancário (CQSB): este pedido não exige presença do casal em data posterior, bastando que cada um envie ao tabelião, com autenticação em cartório (que conveniente), registros de transações bancárias dos últimos doze meses. Inconsistências ou lançamentos incomuns serão relatados ao casal por mensagens de texto. Se um parceiro descobrir uma dívida com a qual não concorde, pode se manifestar ao tabelião em relação a isso e o carimbo será negado a ambos.
Carimbo da memória: consiste em um questionário, confeccionado por cada cartório à sua maneira, com perguntas sobre o(a) parceiro(a). O carimbo só é concedido se ambos obtiverem um índice de acerto de 75%. Sem prova final. Perguntas geralmente encontradas: aniversário do parceiro; data do primeiro encontro; nome dos pais; nome do parceiro… Ficariam surpresos com o índice de erros desta última…
Carimbo do SAMU: casais cuja diferença de idade seja de mais de 80% devem atestar isso com este carimbo, que determina que apenas o regime de separação total de bens é autorizado nestes casos. Se a diferença for de mais de 100%, o casal é autorizado a obter até cinco carimbos SIGILO, ou seja, podem ficar civilmente juntos por, no máximo, 8 anos. Em todos os outros casos, o casal pode obter, no máximo, 6 SAMUs. Ondestão não acredita em relacionamentos tão longos e deseja evitar conflitos no Judiciário envolvendo agregados, filhos não-oficiais, enteados, amantes, trisais e outras variáveis nos relacionamentos familiares.
Atenção: Os SAMUs não são cumulativos. Após corridos os seis meses do primeiro carimbo SAMU, o período de vigência do segundo carimbo não conta a partir do final da vigência do anterior, mas conta a partir do início da vigência do primeiro carimbo. Isso vale para todos os carimbos subsequentes.
Cerimônia civil
A legislação prevê a exigência de readequações na infraestrutura das igrejas e templos religiosos em geral. Os altares agora devem contar com guichês de imigração (imigração para os recantos dos orifícios dos cônjuges) e apresentar o visto. Lá, cada um recebe um carimbo nos seus respectivos passaportes, o carimbo definitivo. O SIGILO (Selo de Intimidade Geral, Intransferível para Lascívia Onisciente).
Mas atenção: o SIGILO não é definitivo e sua duração cresce de forma exponencial. O primeiro carimbo tem validade de seis meses; o segundo, um ano; o terceiro, dois, e assim por diante. Lembrando que, sem renovação deste carimbo, o casal não possui uma série de direitos civis, como adquirir bens conjuntamente, participar de concursos públicos, acessar o sistema público de saúde, entre outros. A renovação do SIGILO dispensa a obtenção dos carimbos anteriores, basta ambos os cônjuges concordarem diante do tabelião. O que nem sempre é fácil, já que a dinâmica de muitas uniões conjugais torna-se turbulenta rapidamente. Caso o casal falhe em renovar o SIGILO, a duração é reiniciada a partir da próxima renovação.
Observação: o SIGILO é critério de exclusão para certos procedimentos de saúde, como vasectomias e ligação de trompas. Quem tem SIGILO não pode fazer estas cirurgias, o que parece contraintuitivo, mas Ondestão quer priorizar filhos apenas de casais resignados o bastante para permanecerem juntos apesar de suas manias e chatices. Apesar da laicidade, o Legislativo precisa fazer uma média com a bancada religiosa, afinal…
Reações da sociedade civil
Como seria de se esperar, nem todos os setores da sociedade civil receberam bem essas novas regras. A OAB, em nota, condenou este ataque infame ao direito da família, lamentando-se pelas dificuldades financeiras que seus advogados passarão com essas regras. Diante de uma burocracia tão eficiente para sequer se casar, quem terá saco para se divorciar? Não bastaria esperar um dos carimbos SIGILO perder a validade?, pergunta o atual presidente da entidade.
A CNBB, ecoando como a comunidade internacional recebeu esta novidade, alegou que esta é uma forma infame de se terceirizar o sacramento que oficializa a união de um casal diante de Deus. Nas redes sociais, o público reagiu a esta novidade com frases como “Certidão de casamento não é carteira de motorista”. Outras pessoas reagiram melhor, justificando sua aprovação observando a volatilidade de muitos relacionamentos modernos.
Apresentamos abaixo um modelo de negócio que vem se popularizando em todo Ondestão. Quiçá se tornando seu maior produto de exportação. Mesmo enfrentando duras críticas de ONGs de direitos humanos e coletivos feministas, os gestores públicos riem à toa com o relevante aumento na arrecadação. Confira.
Modelo de Negócio Self-Service de Sexo (S3)
(Mercado ou Loja de Conveniência Autoatendimento de acompanhantes)
1. Conceito do Negócio
Um estabelecimento self-service onde os clientes entram, selecionam os produtos, passam no caixa automático ou por um sistema de leitura de QR code (disponível na parte traseira das calcinhas das senhoras) e realizam o pagamento sem necessidade de atendentes. Pode ser aplicado em:
Mercados de bairro
Lojas de conveniência 24h
Ao lado de filiais da Igreja Universal e casas lotéricas
Quiosques em condomínios, aeroportos ou universidades
2. Fontes de Receita
Item
Descrição
Receita Mensal Estimada (R$)
Venda de produtos (alimentos, bebidas, snacks)
Margem de lucro de 30% a 50%
R$ 50.000 – R$ 150.000
Publicidade digital (telas dentro da loja)
Parcerias com marcas, incluindo sex toys e tratamentos para aumento peniano
R$ 2.000 – R$ 5.000
Taxa de conveniência (para entregas rápidas)
Parceria com apps (iFood, Rappi)
R$ 1.000 – R$ 3.000
Estilo namoradinha
Sair em público com o cliente, com demonstrações de afeto
R$2.000 – R$ 5.000
Total Estimado
R$ 55.000 – R$ 161.000
(Valores variam conforme localização e tamanho do negócio)
3. Custos Fixos Mensais
Item
Custo Mensal (R$)
Aluguel do ponto comercial
R$ 5.000 – R$ 15.000
Energia elétrica e água
R$ 1.500 – R$ 3.000
Internet e sistemas (câmeras, software de autoatendimento)
R$ 500 – R$ 1.500
Segurança (monitoramento e seguro)
R$ 800 – R$ 2.000
Manutenção de equipamentos
R$ 300 – R$ 1.000
Total Estimado
R$ 8.100 – R$ 22.500
4. Custos Variáveis
Item
Custo Mensal (R$)
Reposição de estoque (contratação de moças)
60% – 70% do faturamento
Transporte e logística (reposição)
R$ 1.000 – R$ 3.000
Taxas de cartão e sistemas de pagamento
2% – 4% das vendas
Limpeza e higienização
R$ 500 – R$ 1.500
Fantasias (para clientes com fetiches)
R$ 2.000 – R$3.000
Teste de fidelidade
R$ 4.000 – R$ 6.000
Confra da empresa
R$ 3.000 – R$ 5.000
Total Estimado
Variável conforme vendas
O teste de fidelidade consiste em uma sessão de gravação em que o cliente escolhe uma ou mais moças e um ator parecido fisicamente com ele realiza o ato sexual. O vídeo é encaminhado à namorada ou esposa quando ambos estiverem juntos, e a reação dela é avaliada, como um test drive para saber se a mulher possui equilíbrio mental suficiente para não queimar a casa com você dentro. A preocupação com a saúde mental deve ser uma constante neste ramo.
O Confra da empresa é um evento corporativo para comemorar as metas alcançadas pela equipe de vendas de sua empresa. Para deixar o ambiente mais divertido, gincanas para turbinar os bônus de fim de ano podem ser propostas, como:
endurance: cronometrar e descobrir qual funcionário dura mais com as moças, valendo acréscimos nos bônus;
roleta russa: girar uma roleta em um círculo com os funcionários e fazer uma ligação de vídeo com o funcionário sorteado, para que a esposa o veja se divertir com uma de nossas profissionais. A possível crise conjugal gerada é uma ótima forma de aproximar os membros da equipe entre si, para que não tenham tempo de pensar em vida pessoal e se dediquem como nunca aos objetivos da empresa. Sem falar no saudável estímulo ao clima de competição entre os funcionários, para que estes se empenhem ao longo do ano enquanto não são sorteados na roleta russa do confra do ano seguinte;
tigrinho: toda a equipe começa a transar com uma das moças em um mesmo ambiente, e um fica acompanhando enquanto o valor apostado por ele aumenta por segundo. Quem gozar primeiro deve pagar a ele o valor equivalente ao tempo que durou (aumento de 1% do valor apostado por segundo). Por exemplo, se a pessoa apostar R$100 e o funcionário que gozar primeiro terminar em 10 minutos, ganha R$38.000.
tigrinho reverso: a ser usado com os vendedores que ficaram mais distantes da meta. Eles apostam e transam com uma das moças. A cada segundo que durarem, perdem menos. Se durarem um segundo, perdem tudo; se durarem dois, perdem 99,5% e assim por diante. Para não perder nada, precisam durar no mínimo 200 segundos, ou 3’20”.
5. Logística e Reposição
Frequência de reposição: Diária (produtos perecíveis) e semanal (não perecíveis).
Fornecedores: Atacadistas (Skokka, GPGuia) ou distribuidores locais.
Transporte: Veículo próprio (custo fixo) ou terceirizado (por demanda). Opção de veículo conversível para que os transeuntes possam observar o cliente no auge de sua performance física com uma de nossas colaboradoras.
Controle de estoque: Sistema automatizado com alertas de reposição.
6. Estrutura Necessária
✅ Sistema de autoatendimento (caixa automático ou app de escaneamento) ✅ Câmeras e sensores para evitar furtos ✅ Refrigeração adequada ✅ Sinalização clara de preços e instruções
7. Projeção Financeira Anual
Cenário
Faturamento Anual (R$)
Lucro Líquido (R$)
Conservador
R$ 600.000
R$ 120.000 (20%)
Moderado
R$ 1.200.000
R$ 300.000 (25%)
Otimista
R$ 1.800.000
R$ 540.000 (30%)
(Lucro depende da gestão de custos e localização)
8. Vantagens do Modelo Self-Service
✔ Redução de custos com funcionários ✔ Aberto 24h (se automatizado) ✔ Menos filas e maior satisfação do cliente ✔ Escalável (pode ser replicado em outros locais)
9. Riscos e Desafios
❌ Possíveis furtos (requer sistemas de segurança) ❌ Dependência de tecnologia (falhas no sistema podem parar as vendas) ❌ Concorrência de mercados tradicionais
Conclusão
Um mercado self-service pode ser altamente lucrativo se bem localizado e com um sistema eficiente de automação. O investimento inicial em tecnologia e segurança é alto, mas os custos operacionais são menores que os de um mercado tradicional.
Ondestão possui um parque equivalente ao superfaturado e imperialista parque de diversões do sionista depressivo criador do Mickey Mouse onde às vezes tem criancinha morrendo devorada pelo jacaré do Peter Pan. Não contém ironia, infelizmente. É claro que, imbuídos de consciência de classe, a Dye sin não possui desenhos que naturalizam o racismo como em Dumbo, nem patos fofinhos que são a epítome do capitalismo, como o Tio Patinhas, que casualmente conta aos sobrinhos em Duck tales como ficou rico com garimpo ilegal no Klondike. Temos personagens muito mais interessantes. E para mostrá-los, vamos trazer a experiência de uma famosa influenciadora da região (canal Turistando em Rolando) levando a filha para ter… um dia de princesa na Dye sin world! Vem com a gente conferir a transcrição automática do vídeo!
[vídeo abre com um holograma de uma das fadas acima do peso da Linda Narcoléptica, equivalente ondestanesa da Bela Adormecida] Oi, pessoal tudo bem com vocês? Sejam bem vindos ao nosso canal. Pra quem não me conhece eu sou a Gabi, e hoje eu tô aqui no Dye sin springs, onde vou gravar pra vocês uma experiência super legal que tem aqui, e também no Classic Kingdom, que as crianças, as meninas principalmente, viram princesas. Tudo isso acontece na Cabeleireira Leila, que é como se fosse um salão aqui da Dye sin, e eu vou mostrar tudo pra vocês. Já deixou seu like? Se inscreve aqui no canal e vamos lá! [pouco antes de cortar para a vinheta, é possível ver uma senhora de chapéu coco sendo multada por circular pelo parque com aqueles carrinhos semelhantes ao que os estadunidenses acima do peso usam: Ondestão tem tolerância zero com gordos, e o carrinho foi guinchado. Deve ser levado a um pátio a cinco quilômetros do local de gravação, cujo acesso é apenas a pé para os turistas, para que estes aprendam a comer outra coisa além de Big Mac] [Música de abertura do vídeo] A gente entrou aqui no salão, agora ela [a filha da Gabi] teve que escolher o penteado que ela ia querer. E é a criança quem escolhe, a gente não pode opinar. Ela escolheu esse primeiro aqui, porque a fantasia dela vai ser da Cinderela. Olha só, o pacote da Valentina [filha da Gabi] é o Castle. [As fotos das meninas vestidas de princesa são exibidas como em um menu, com um rodapé dizendo ‘Candidates to the Pink book must apply directly at our office in the back door. $50 fee.’] Depois vou falar um pouco mais sobre isso pra você. [mostra armáro cheio de apetrechos de princesas] E todas essas opções aqui são de vestidos de princesas, eles têm e perguntam para a criança qual vai ser o escolhido. A Valentina escolheu a Cinderela, e agora ela tem que vim aqui escolher o sapato que ela vai querer. Tem todas essas opções aqui. [Valentina diz ‘Esse, eu acho que é o sapatinho da Elsa] E esse, Valentina? É o sapatinho de cristal? [aponta] [garotinha fala algo indecifrável e uma funcionária informa que cada sapatinho possui o nome da princesa que o usa. ‘Tinha que ser latina…’, murmura.] Então é esse é o vestido da Cinderela, e o vestido dela vai ser aquele ali. Eu falei pra você que o pacote da Valentina é o Castle. Inclui cabelo, maquiagem, unha, roupa… enfim, o pacote quase completo. Só não tem uma sessão de fotos. As fotos, a gente quis fazer no Classic Kingdom, então saindo daqui do Dye sin springs a gente vai pra lá. Ela escolheu a Cinderela: sapatos, vestidos, até o cabelo ela vai fazer, tipo um coque. Como eu mostrei, também tem pacotes mais simples. O dela vai custar cerca de U$200 dólares, mas o sapato não estava incluso. Com aquele sapato vai sair um pouquinho mais, e tem a opção de você fazer só o cabelo, a unha e a maquiagem, que eu acho super legal. Mas você pode comprar um vestido em outra loja que sai um pouco mais barato. E essa daqui é a Valentina, que vai virar princesa. [a mãe exibe a menor se expondo sem consentimento] Eu vou mostrar toda a transformação dela, está super empolgada, primeira vez aqui na Dye sin, e depois a gente vai pra onde? [Valentina diz algo] A gente vai para o parque, que tem o castelo, vai fazer várias fotos… vai ter um dia bem especial, né? [garotinha concorda com a cabeça] Então é isso, vamos continuar acompanhando aqui e daqui a pouco vai começar a transformação da Valentina. [Valentina cantarola música da Frozen, que também toca no fundo] Gente, aí tem o vestido dela, olha que coisa mais fofa. E aqui tem uns acessórios atrás. [cetro, sapatos, tiara][Em um canto da sala encarpetada com flores de lis, tem um holograma com uma das fadas da Linda narcoléptica, ensinando divertidas táticas para induzir vômito após as refeições para permanecer linda e magra e não acabar uma gorda asquerosa de cabelo ruim como ela. Explica por tabela como conseguir receitas clandestinas de Zolpidem, para só acordar depois que a mamãe voltar da balada com as amigas] [‘You know the magic words, don’t you dear?’, pergunta a fada do holograma] Sabe as palavras mágicas, Valentina? [holograma diz ‘And I think this should be just enough to…’] E agora a Valentina vai começar a transformação. As moças que trabalham aqui são chamadas de fadas madrinhas sem CLT. Então, elas vão transformar realmente as meninas em princesa. Elas ficam de costas pro espelho o tempo todo porque daí elas só viram realmente quando estiver pronta pra ver aquela mágica, para ter aquela surpresa, e eu vou mostrando tudo. Elas começam pelo cabelo, como eu já falei, ela escolheu o coque. Então vamos ver como ela vai ficar. [Música enquanto é exibida parte da sessão no cabeleireiro, fazendo a manicure. Recebe tiara, cetro e uma faixa rosa, já vestida com o vestido escolhido e com o coque] Ah, gente… agora ela foi chamada para fazer uma foto aqui. Olha isso aqui, que coisa mais linda. [tiram várias fotos com os acessórios em frente a uma carroça temática do conto de fadas] Pra explicar melhor pra vocês, o salão possui vários planos que custam a partir de 60 dólares. É super importante reservar não tem como chegar aqui e querer direto. É bem concorrido. A gente veio aqui num dia bem ruim porque foi o dia que a gente conseguiu vaga. O que eu considero mais perfeito ainda é fazer no Classic kingdom, mas aí tem que reservar com 180 dias de antecedência. Então, tem que se programar, decidir qual o pacote você quer, e o valor é pago só na hora que a criança for fazer a transformação. Já chegamos aqui no Classic kingdom, e antes de chamar a Valentina pra finalizar o vídeo, eu quero falar pra vocês que meninas de 3 a 12 anos que podem participar da experiência do salão: vale a pena agendar com bastante antecedência. Os meninos que quiserem ter uma experiência diferente também podem se fantasiar de príncipe ou pirata aqui no parque, eles costumam gostar bastante. [uma tomada consegue filmar rapidamente um menino de pirata ao fundo, mas ao perceber que ele foi treinado para roubar outros turistas, desviam a câmera] Agora nossa princesa está pronta, a Cinderela. E acabou de chegar no seu castelo. O que achou, filha? Eu achei muito legal, responde a criança. Que completa dizendo que visitarão o castelo, com vários brinquedos. Você está muito linda, elogia a mãe, e se despede para a câmera. [Música] [corta para algumas tomadas em preto e branco com pequenos erros de gravação e algumas imagens escondidas de dentro do castelo, conhecido pela precisão histórica de sua reconstituição. Para começar, logo ao se passar pelo portão por sobre um fosso que cerca a edificação, guardas empurram os turistas violentamente para um acesso exclusivo dos empregados, ladeado por excreções humanas que descem de um fosso das suítes do terraço, já que não existia saneamento básico no tempo da Cinderela. Alguns hologramas na parede exibem fadas e objetos inanimados ganhando vida, com feições cartunescas. Os sapatos dos turistas começam a ficar grudentos em meio à urina e às fezes, e uma barraquinha oferece o aluguel de calçados de salto alto para andarem com mais conforto. As vendedoras mais insistentes insinuam que as mães precisam dar saltos altos às filhas para que estas não cresçam encurvadas igual uma bruxa agourenta de útero seco, sem filhos e feia] [ao passar pela cozinha do castelo, a criança é separada da mãe, e explicam que a verdadeira experiência da Cinderela é ficar morando de favor e amargar a execução de trabalho infantil. Atrizes vestidas de madrasta e de irmãs de cinderela surgem, gritando sem parar com ela, regulando sua autoestima o suficiente para que se submeta às tarefas domésticas de forma mais dócil. Em seguida, culpam tudo que dá errado na cozinha às crianças, e as atrizes investem em reforços positivos dizendo que ninguém as queria no mundo e que têm sorte de pessoas bondosas como ela topar cuidar de enjeitadas como elas. Existe uma versão mais barata e curta do passeio em que a criança é levada a uma roda dos enjeitados, mas exige assinatura de um termo de consentimento dos pais] [a parte final do passeio começa quando a carroça mágica da fada chega, um holograma na parede, e a criança vai para um baile dançar com um sapatinho de cristal fino. Se conseguir completar uma valsa sem quebrá-lo, ganha uma boneca de pelúcia exclusiva da Cinderela e pode ir encontrar a mãe. Se não conseguir, deve segurar o choro dos cacos de vidro perfurando seus pezinhos, sentar-se em uma chaise longue na sala onde vive com a madrasta, e aguardar o príncipe chegar com outro sapatinho de cristal. A criança tem acesso às redes sociais do príncipe, cheias de fotos deste com outras crianças, aparentemente dando mais atenção às outras do que a ela, educando a criança para saber que ela não é a única de ninguém e que uma hora seus referenciais masculinos vão se enjoar dela, como uma modinha passageira]
Prefeito põe prostitutas para varrer ruas em Ondestão
Agripino Sá DA AGÊNCIA G.O., EM Imacubetlândia
A Prefeitura de Imacubetlândia, na zona da mata de Ondestão do Oeste, descobriu um modo original de erradicar a prostituição na cidade: o prefeito Romero Madalena Nascimento (POD), 24, fechou os prostíbulos locais e contratou 17 prostitutas para trabalhar no serviço de limpeza das ruas. As mulheres contratadas estão impedidas de voltar a se prostituir, sob pena de demissão, diz Nascimento. Mas podem fazer “bicos” em outras atividades para melhorar a renda mensal. Como funcionárias públicas, elas ganham salário de R$ 24 por mês e mais o equivalente a R$ 30 em alimentos fornecidos pela prefeitura. O salário mínimo no país é de R$ 100. Como prostitutas, elas ganhavam em média R$ 5 por “programa”. O município está gastando mensalmente R$ 918 para manter as 17 mulheres empregadas. O valor representa 50% do salário de um dos nove vereadores locais. Tecnicamente, a câmara municipal local poderia ser substituída por 306 profissionais do entretenimento adulto, e talvez ainda sobrasse a comissão para o cafetão local. As mulheres que não se interessaram pelo trabalho na prefeitura deixaram Imacubetlândia – cidade com 69 mil habitantes. As 40 casas que pertenciam à zona do meretrício estão agora ocupadas por famílias da cidade. Algumas inclusive iniciadas em conjunto com as ex-funcionárias do local, fontes revelam à reportagem sob condição de anonimato. Morar onde se trabalha… quem gostaria de misturar vida pessoal com negócios?
Leia mais: Governo estuda considerar homens com vida dupla como terceirizados informais do amor, para fins de dedução no IR.
Três mulheres contratadas abandonaram o emprego no setor de limpeza das ruas, porque gastaram tudo no jogo do tigrinho não se adaptaram ao serviço, e se mudaram para São Paulo. O prefeito diz que decidiu acabar com os prostíbulos por causa de reclamações de moradores e da violência. Segundo ele, registrava-se pelo menos um assassinato por semana dentro da área de prostituição da cidade. O município de Imacubetlândia é um dos mais pobres do interior de Ondestão, localizado em uma região que sobrevive de incentivos fiscais para exploração de jogos de azar. Decisão lógica para os gestores públicos, já que moram em uma terra onde nada cresce, mas a coleção de carros importados dos secretários não para de crescer. A prefeitura estima que Água Preta tenha de 3.000 a 4.000 trabalhadores desempregados, que dependem da ajuda de órgãos públicos para sobreviver. Belarmina de Barros, 43, uma das contratadas pela prefeitura, diz que sua vida está melhor hoje. Ela se prostituiu durante 14 anos. “Ganhamos pouco na prefeitura, mas podemos andar livremente nas ruas e até as mulheres casadas já conversam com a gente, coisa que não faziam antes.” Outras, sob condição de anonimato, revelam arranjos mais rodrigueanos com seus clientes. Em algumas casas, devem evitar ser vistas pelo fato de alguns maridos agora voltarem a procurar suas parceiras oficiais, para a fúria destas. Ouvem das mulheres de bem que estão de corpo mole e que estão destruindo casamentos. Nascimento, apontado pela Justiça Eleitoral o prefeito mais jovem do Brasil, conta que a ideia de acabar com a zona do meretrício da cidade surgiu há um ano e meio. “Ninguém mais precisa vender o corpo por trocados e nem se sujeitar a doenças como a Aids”, afirma o prefeito, filho do delegado de polícia e deputado estadual pelo POD Nélio Travassos. O fechamento das casas está causando problemas para João Calado, 62, administrador do zoológico local. Segundo ele, muitos casais têm usado a área do zôo para -em suas palavras- “furar o couro”, ou seja, manter relações sexuais. Nas proximidades da jaula da onça, a reportagem da GO encontrou um preservativo usado. “Eu aumentei a vigilância, mas é difícil controlar os namorados”, diz Calado. Há quem prefira, no entanto, dirigir-se a Palmares, cidade vizinha, onde a prostituição funciona normalmente. Nascimento considera “quase impossível” acabar inteiramente com as prostitutas, mas, com o fechamento da zona, acredita ter eliminado 90% do problema na cidade.
Covid-19: ‘A BandAid Health deixou minha mãe morrer’, diz tradutor
15/10/2021 07h00
O tradutor e filologista Norberto Uemura, 60, afirma que médicos da unidade hospitalar da BandAid Health localizada no bairro do Casulo, em Papillon, se recusaram a manter o tratamento de sua mãe. Vítima da covid-19, a aposentada Celinha das Dores morreu no dia 23 de março deste ano, aos 88 anos de idade.
“O hospital recusava-se a continuar a mantê-la em tratamento, alegando que ela já era muito idosa. Deixaram minha mãe morrer”, diz Uemura (leia seu relato completo mais abaixo).
A BandAid Health afirma que “o tratamento prescrito à senhora Celinha das Dores foi feito em comum acordo com familiares.” (leia a nota mais abaixo).
Memes nas redes sociais ironizando os argumentos da BandAid Health para recusar tratamentos. Repare no terceiro braço da moça, talvez tentando um reimplante após o açougueiro do bairro se recusar a dar alguns pontos.
Investigações sobre a BandAid Health
No dia 28 de setembro, a advogada Gina Rabelo, representante legal de 18 médicos que fizeram denúncias contra a BandAid Health, disse em depoimento à Audiência da Covid, que a operadora de saúde implementou uma política interna de “coerção”, e que os profissionais de saúde acabaram receitando o chamado “kit covid” por medo de sofrerem retaliações, inclusive demissão.
A advogada também levantou a suspeita de que a BandAid Health implementou uma política de deixar os mais idosos perecerem da doença. A prática foi resumida numa frase: “Óbito também é alta”.
O Ministério Público de Ondestão criou uma força-tarefa para investigar as denúncias contra a BandAid Health. A Câmara Municipal de Papillon instalou uma comissão que tem o objetivo de apurar supostas irregularidades fiscais e violações éticas da BandAid Health na capital, como uma suspeita de subnotificação do número de casos de contaminação de covid-19 e de óbitos causados pela doença.
Relato de Norberto Uemura
“Minha mãe, Celinha das Dores, dona de casa, vítima de covid-19, morreu em um hospital da rede BandAid Health, no dia 23 de março de 2021. Ao menos em dois momentos, o hospital, por meio de seus médicos, afirmou que não valeria a pena mantê-la em tratamento, alegando que seria muito idosa. Isso quando toda a milionária propaganda da BandAid Health é voltada para o atendimento, ou suposto atendimento, de pessoas idosas. Alegam buscar tantas formas de facilitar a vida de pessoas tão vividas assim trazendo inúmeras facilidades em seus corredores para minimizar o sofrimento delas, como guichês onde as financeiras oferecem empréstimos consignados e carnês de títulos de capitalização do OndeCAP.
Com suspeitas de contaminação por covid, minha mãe recebeu o “kit covid” em casa, sem passar por qualquer consulta. Porém, eu a encaminhei para o hospital antes de esses medicamentos ineficazes chegarem. Minha irmã, Karen Uemura, havia tentado antes uma consulta por telemedicina, mas desistiu ao constatar que apenas atendentes —e nunca um médico—, ouviam os relatos dos pacientes e, em seguida, enviavam por meio de um motoboy os tais remédios.
No dia 20 de fevereiro (sábado), no início da madrugada, minha mãe deu entrada na unidade da BandAid Health no bairro da Marola. A primeira coisa que eu disse para o médico que a atendeu foi que não lhe desse de forma alguma hidroxicloroquina ou outro desses medicamentos ineficazes. Ele confirmou que esses remédios faziam parte do protocolo do hospital, mas disse que não havia prescrito. Tive de confiar na sua fala.
Paciente estava amarrada à cama
No mesmo dia, minha mãe foi removida para a unidade da BandAid Health no Casulo. No quarto dia de sua internação, minha outra irmã, Loreta Uemura, foi visitá-la. Encontrou minha mãe amarrada à uma cama. Achamos aquilo um absurdo. Os médicos do hospital se justificaram dizendo “ser necessário” o procedimento porque minha mãe estaria “arrancando a máscara de proteção com as mãos”. Disseram-nos para pensarmos naquilo como um cinto de segurança.
Após essas explicações, uma médica, identificada como Nadine, disse que minha mãe tinha “coração de 90 anos, fígado de 90 anos, e rim de 90 anos”. Minha mãe estaria tendo uma piora e, segundo ela, em casos de pessoas com essa idade a intubação não é a melhor solução, “pois não tem o que fazer, e ela não se recupera mais. Quem tentaria trocar o motor de um Marea turbo, certo?”.
As chances de minha mãe voltar a ser como era seriam muito pequenas, sentenciou a médica. A idade biológica da minha mãe era 87 anos. Por um erro no cartório, ela foi registrada como se tivesse nascido dois anos antes. E ainda por cima, o hospital nos acusou de ter fraudado a certidão de nascimento dela, para que ela conseguisse furar a fila para receber as primeiras doses da vacina da Astra-Zeneca. “Deviam ter vergonha na cara: essa não é a melhor hora pra furar a fila, por ser preferencial.”, disse Nadine.
A mesma médica comentou que minha mãe tinha uma “ventania no coração”. Teria problemas cardíacos. Minha irmã Loreta respondeu que ela nunca teve sopro no coração, que fazia exames periodicamente e nunca havia sido detectado nada. Jamais tivemos conhecimento de que ela apresentasse qualquer doença do coração.
Tememos que possam ter dado hidroxicloroquina ou outros medicamentos inadequados para ela no hospital, ocasionando então um problema cardíaco. A contaminação de minha mãe pelo Covid era recente e estranhamos também aquela piora tão rápida. Esperamos que não tenha sido pelo uso da hidroxicloroquina. Mas, diante de inúmeras denúncias e das reiteradas práticas da BandAid Health, achamos importante que esse fato possa ser investigado e esclarecido.
“Cuidados paliativos”
Como o quadro de minha mãe teria piorado, a médica disse para minhas duas irmãs no hospital que seria necessária uma decisão da família pela intubação ou o início de cuidados paliativos, e que essa decisão precisava ser tomada em poucos minutos. Ela sugeria os cuidados paliativos, que seriam aplicados em uma outra unidade da BandAid Health.
Minhas irmãs que lá estavam, e eu e outro irmão, por telefone, decidimos pela intubação, pois minha mãe não tinha comorbidades, era muito ativa, estava bastante lúcida e gostava muito de viver.
Logo depois disso, a médica e a equipe de enfermagem entraram no quarto de minha mãe. Minhas irmãs ainda conversaram com ela, totalmente consciente naquele momento. Daí em diante, por um longo tempo, foram muitas as entradas e saídas de médicos e membros da equipe de enfermagem no quarto de minha mãe. Minhas irmãs e uma sobrinha, Luiza, ficaram no saguão do elevador, de onde tinham visão do quarto e escutavam as conversas. Luiza ouviu um médico questionar: “Para que intubar uma pessoa de 90 anos?”, enquanto colocava uma nota de vinte reais para comprar um maço de Marlboro, ao lado de um pacote de Kleenex, na máquina de venda automática do corredor.
Visivelmente a contragosto, iniciaram a intubação. Ao final, a médica comentou que houve muita dificuldade para o procedimento. Informaram, enfim, que minha mãe seria transferida para a UTI. Infelizmente, isso não ocorreu. No dia seguinte, recebemos um telefonema para irmos urgentemente ao hospital. Quando minhas irmãs lá chegaram, não encontraram minha mãe. Tentaram impedi-las, mas elas saíram procurando pelo prédio do hospital.
Descobriram depois que ela estava largada, numa sala de espera de um pronto-atendimento no segundo andar, sem acompanhamento médico em tempo integral, intubada, mas sem qualquer outro cuidado. Fora deixada num canto reservado, escondida apenas por uma pequena cortina e a pouquíssimos metros de dezenas de doentes que esperavam por atendimento ou consultas. A recepcionista alegava que aquela situação era uma espécie de cuidado com o paciente, para que este tivesse o tempo e a oportunidade de analisar pessoas mais doentes do que ela e para trocar experiências. Era possível até ver cartazes com apelos para pacientes mais jovens com a hashtag #meintubaepronto.
Recusa em internar a paciente na UTI
Não queriam encaminhá-la de jeito nenhum para a UTI. Repetiam que não ia “adiantar nada” por causa de sua idade. A médica insistia, então, para que autorizássemos a transferência para a outra unidade da BandAid Health. Diante daquele quadro, protestamos imediatamente. Ficamos indignados com o descaso. Minha mãe só foi encaminhada para a UTI depois da interferência de meu genro, médico, que esteve no hospital.
Daí em diante, foram cerca de 20 dias na UTI. Com receio de ser atingido pela Covid – afinal, eu fora um dos únicos da família a não ter pego a doença -, eu não ia sempre ao hospital. Mas minhas irmãs estavam lá, diariamente.
Elas reclamavam em razão de os boletins médicos da BandAid Health – fornecidos, na maioria das vezes, por um médico identificado como doutor Kalil – divulgarem sempre a informação de que minha mãe se mantinha num quadro estável ou vinha obtendo melhoras. O doutor Kalil falava com alegria e satisfação, como se ela já estivesse acordada e sem aparelhos. “Quem dera eu tivesse a oportunidade de tirar férias assim”, afirmava.
Minhas irmãs enxergavam o contrário, ao verem minha mãe com as mãos inchadas “como se estivessem prestes a estourar”. Nos últimos dias na UTI, ela não dava nenhum sinal de que iria acordar. Estava com o corpo machucado, cheio de escaras (feridas) na região sacral (no fim da coluna), já com necrose. A Loreta, que é técnica em enfermagem, reclamava por não ver serem tomados os cuidados adequados a esse problema, como o banho e medicação.
O doutor Kalil anunciava a iminente liberação de minha mãe da UTI, como um sinal de recuperação e a provável volta para casa. Ele nos deu esperanças. Ao menos, a mim. Fiquei animado. Mas, dois dias antes da morte de minha mãe, uma outra médica, identificada como Raíssa, voltou a falar da necessidade dos cuidados paliativos. “Já se passou muito tempo sem nenhuma melhora”, afirmou a médica. Para ela, não tinha mesmo sentido minha mãe continuar ali porque não haveria nada mais a fazer. “É como dono de restaurante deixar um casal se sentar em duas mesas unidas e perder espaço para seis clientes”.
Minhas irmãs fizeram esse relato e eu pedi para o meu genro médico ir ao ao hospital, a fim de também avaliar o quadro e nos orientar. Era um sábado. Ele aguardou por cerca de quatro horas na calçada e no saguão do hospital, mas sua entrada não foi autorizada. A administração da BandAid Health alegou que os andares do prédio passavam por uma limpeza naquele momento e ninguém de fora poderia acessar o seu interior.
Diante de uma piora de saúde de minha mãe, segundo a médica, ela queria a autorização para os iniciar os cuidados paliativos. Diante do longo tempo de dor e sofrimento, os quatro irmãos consultados entenderam não haver outra alternativa. Eu achava que ela deveria continuar sob tratamento, mas não tinha como contrapor. Consultando outros médicos, também não visualizei outras alternativas.
A médica Raíssa disse para minha irmã Loreta: “você fez a melhor escolha”. Ela informou que seriam aplicadas doses de morfina em minha mãe. Ela morreu às 21h12 do dia 23 de março de 2021. Minutos depois, ouvimos uma assistente do hospital comunicando a outra família que o leito dela estava vago.
Nos dois dias antes de sua morte, minha mãe já estava sem soro e sem a dieta nasoenteral (utilizada quando o paciente não pode ingerir alimentos sólidos por via oral). Questionada, uma enfermeira respondeu: “Isso já não é mais o principal. Ela não precisa disso”.
Minha mãe foi preparada para morrer. Esperamos que o Ministério Público de Ondestão, as Audiências da Pandemia no Senado Federal e da BandAid Health na Câmara Municipal de Papillon possam investigar e comprovar se foi adequado o atendimento dispensado aos idosos nos hospitais da BandAid Health. São reiteradas as denúncias de que idosos não podiam passar mais de 30 dias internados e que leitos precisavam ser desocupados. Alguns médicos, como se vê, cumpriam rigorosamente essas orientações.”
Leia a resposta da BandAid Health
“A BandAid Health esclarece que o tratamento prescrito à senhora Celinha das Dores foi feito em comum acordo com familiares. No dia 19 de fevereiro foi atendida por uma médica, por telemedicina, e a família orientada que em caso de piora deveria ir diretamente a um pronto-socorro, como ocorreu no dia seguinte. Só porque a profissional optou por não ligar a câmera por ainda não ter se arrumado para começar o dia, não significa que ela não estava prestando os esclarecimentos à família, à distância, de forma humanizada. Tão humanizada que este expediente foi escolhido para não aumentar o risco de infecção dos familiares que acompanhavam o tratamento.
Todas as informações sobre a internação da paciente são protegidas por sigilo legal relativo ao prontuário médico. Os familiares podem divulgar o prontuário, que comprovará que todas as condutas necessárias foram adotadas, inclusive durante o período de intubação. Sobre o relato de que paciente ficou “amarrada”, na realidade trata-se de contenção mecânica, procedimento padrão adotado quando os pacientes ficam muito agitados.
Entendemos, contudo, que a introdução de novas práticas gera resistência por parte da sociedade civil. Estamos testando aqui partes dos protocolos para eutanásia realizados em partes da Europa, com pequenas adaptações para a realidade local, para promover um luto mais humanizado. Chamamos de eutanásia de efeito retardado. O senso comum não faz a mínima ideia do desgaste e do sofrimento gerados por uma intubação, por exemplo. E a introdução desta prática eugênica revolucionária vem ao encontro das necessidades de a família abraçar o processo de luto e seguir em frente. Reconhecemos que é difícil superar a mentalidade mercadológica, e é fácil empreendimentos de sucesso ético como o nosso serem injustamente acusados de más práticas, mas mantemos um canal aberto para explicar a nossos clientes porque deliberadamente deixamos os seus morrerem. Na verdade, não deixamos: apenas respeitamos os trâmites da natureza. Não saímos das cavernas para a vida nômade para terminar nossos dias vegetando em leitos de hospital. E é desse triste fim que queremos livrar nossos estimados pacientes.
A BandAid Health está à disposição de todos os órgãos fiscalizadores para dar todos os esclarecimentos.”
‘Já viveu o suficiente’: Advogada traz mais bastidores da BandAid Health
12/10/2021 04h00
“Óbito também é alta” não foi a única frase chocante que a advogada Gina Rabelo, que representa 12 médicos que trabalhavam para a BandAid Health, ouviu ser usada como verbalização de uma política para encurtar o tempo de internação de pacientes com covid-19 a fim de economizar recursos.
Em seu depoimento à Audiência da Covid, ela havia revelado que médicos relatam que a empresa orientava pela redução da quantidade de oxigênio a quem estava internado há cerca de duas semanas, levando doentes à morte e liberando leitos. O plano de saúde tem negado as denúncias e acusa uma armação.
Em entrevista que nos concedeu no GO, nesta segunda (11), Rabelo afirmou que também ouviu de médicos que eram comuns outras justificativas serem usadas em hospitais da rede, como pacientes já serem idosos e terem vivido muito ou que suas famílias não teriam como descobrir o que realmente aconteceu. “Nos autos, é possível ler, em um dos depoimentos ouvidos por meus clientes: ‘Essas pessoas assistem muito a House, não tem como a gente ficar investigando as suspeitas amis obscuras de diagnósticos sem nem usar jaleco. Sem tempo, irmão’”.
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BandAid Health tentou economizar seu patrimônio gastando a vida de Tadeu no lugar
Paracetamol: Marçal T. Siqueira tem histórico de veto a leis que ajudam os pobres “Ouvi muitas vezes a expressão ‘não vale a pena investir’, quando se tratava de pacientes muito idosos. Investir em um tratamento tradicional, que seria a intubação e o acompanhamento desse paciente. ‘Já viveu o suficiente’ foi outra expressão muito triste que ouvi também. Ou ‘a família nunca vai descobrir’. São todas expressões que precisam ser averiguadas”, afirmou Rabelo.
Ela ressalta que apesar de as frases serem de “uso comum na operadora de saúde”, elas foram cunhadas por um grupo de profissionais e acabaram sendo repetidas por outros. Diz que o conjunto de provas, incluindo mensagens que demonstram esse comportamento, já foi encaminhado às autoridades. A advogada defende que é importante analisar a cultura organizacional da BandAid Health para entender como tudo isso aconteceu.
O plano de saúde adota um modelo vertical, contando com hospitais e laboratórios próprios para a redução de custos. Isso, como foi discutido na Audiência, pode gerar um conflito de interesses entre a prática de um hospital e de seus médicos, enfermeiros e técnicos (que tendem a usar todos os recursos disponíveis para salvar a vida de um paciente) e de um plano de saúde (que defende que os custos sejam os menores possíveis).
Ela defende que o modelo de negócios precisa ser revisto, mas não extirpado para não prejudicar clientes e funcionários. Abaixo, segue transcrição de um dos áudios mais efusivos de um dos membros do Conselho da empresa:
“Em situações de dificuldade financeira, todos os negócios podem falar de contenção de gastos menos nós? Isso fica entre nós, o que vou dizer. Que hipocrisia! Estamos estudando uma parceria com a Imacubet para organizar um bolão Pé na cova, mas ainda estamos com dificuldade de passar nossa carteira para uma agência inescrupulosa o bastante pra essa loucura. Ganharíamos com nossa parte do plano de saúde, e ainda ganharíamos com os mórbidos apostadores acertando a ordem dos nomes nos obituários. Poderíamos até manipular resultados forjando as causas de morte mais lucrativas para a casa de apostas, mais ou menos como ciganos fazem com cavalos. Outro desafio seria a culpinha cristã da sociedade, que se esmera em registrar nas estátuas detalhes sórdidos do sofrimento do messias deles, mas fica chocadíssima quando decidimos abreviar a vida de pacientes terminais por não ser ‘plano de deus’. Ah, faça-me o favor! Teremos que nos sentar à mesa com eles para discutir uma parte no plano de saúde, para que eles defendam nos sermões como é uma boa ideia acelerar os planos de deus sem ocupar nossos leitos.”
“Precisamos estudar como eles conseguiram fazer esse modelo viável sem a redução de custo e sem o malefício do paciente para tentar viabilizá-lo. Essas 500 mil vidas [número de segurados da BandAid Health] são pessoas que, neste momento, não conseguem recorrer a outras operadoras de saúde. Porque elas não se interessam por esse tipo de público [mais idoso] ou, quando se interessam, o valor das mensalidades chega a ser dez vezes maior, alem das carências”, avalia.
BandAid Health foi usada pelo presidente para justificar distribuição de cloroquina
No depoimento à Audiência da Covid, Gina Rabelo apontou que o plano de saúde, acusado de usar seres humanos como cobaias em experimentos não autorizados e de alterar prontuários e atestados de óbitos para retirar a covid-19 como causa, foi uma peça fundamental na política do governo brasileiro para tentar convencer a população a voltar à normalidade mesmo com a mortalidade trazida pela pandemia.
Afinal, o governo defendia que comprimidos de remédios ineficazes para covid-19, como cloroquina, ivermectina e azitromicina protegeriam a todos. Essa política, segundo Rabelo, se alinhava a interesses do Ministério da Economia, que precisava de uma justificativa “científica” a fim de evitar o fechamento de atividades e impedir uma retração do PIB e do emprego. Buscou-se, então, construir esses comprimidos inúteis para a doença como um elixir mágico.
O esquema teria contado com a intermediação do chamado Gabinete Paralelo do Ministério da Saúde, encabeçado por negacionistas como os médicos Néscia Yamamoto, Pablo Zeroasinistra e Appolonio Wahl. Este último, inclusive, faleceu de covid apesar do uso do “tratamento precoce”. De acordo com as denúncias, teve seu prontuário manipulado pela BandAid Health para retirar covid como causa.
A reportagem entrou em contato com a instituição que teria confeccionado o atestado de óbito de Wahl, e nos foi informado que “covid-19 é a nova virose, desculpa que médico preguiçoso dá quando não quer investigar”. Batentes folheados a ouro e piso com mármore importado de Carrara davam pistas da opulência do local. Funcionários animados circulavam pelos corredores do cartório, alguns contando maços enormes de dinheiro recebido para reconhecer rabiscos alheios em pedaços de papel apesar de já existir assinatura eletrônica. Entre si, diziam coisas como “Sabe qual a diferença entre o cemitério e nós? Eles ganham com a morte, nós ganhamos só de os otários existirem!”
Siqueira e os ministros da Saúde Jens Mengele e Joe Undertaker sempre afirmaram que não poderiam ir contra a autonomia dos médicos em receitar hidroxicloroquina e ivermectina. Mas o plano de saúde fez isso por eles. Segundo Gina Rabelo, profissionais de saúde eram obrigados a prescrever o “kit covid”. Algumas vezes, a prescrição já chegava pronta de cima. Conforme pode se constatar em um dos áudios circulando em grupos usados por membros do governo, cujo autor ainda está sendo investigado, à qual a reportagem teve acesso:
“É como na hora de fazer tarefa de casa da escola e a gente pedia ajuda pro CDF e este dizia: copia, mas não faz igual. A velharada já tomou cartilagem de tubarão, xarope de sene, e não quer meter uma mísera cloroquina pra dentro? Tudo é culpa desse governo, pelamordedeus! Morram quietos, sem encher nosso saco. Vão culpar a natureza, ela quem trouxe a covid-19 em nossas vidas. Depois falam que a gente não está recuperando a economia. Quando o Mengele faz licitação para comprar sacos pretos pros índios do Amazonas, é todo um setor sendo aquecido, o funerário. Se as pessoas merecem ganhar dinheiro com clientes vivos, por que vamos ignorar os clientes mortos? Parem com esse egoísmo, todo mundo vai morrer, mesmo…”
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Colchão, 1 ano de uso. Fui corno nele. De graça se deixar eu observá-lo sendo usado por casal fogoso. Mulher deve usar vestido que ex esqueceu de levar. $100
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FONO DE BEBÊ REBORN
Tarefa é cuidar bem de meu bebê e comprovar isso com recibos até o vagabundo que me comeu descalço topar pagar a pensão que pedi. Ele mora fora, então se for convincente, vai funcionar. Pagamento a combinar.
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Jogo saudável entre amigos. Procuramos minorias para serem deixadas a esmo nos bairros mais perigosos da cidade de madrugada. Nas cartelas, casas têm situações como abordagem para averiguação, desaparecimento, agressão, entre outros. Quem fechar a cartela primeiro paga metade do que ganhar ao candidato.
ONG DE ANIMAIS PEDE SOCORRO
Não aguentamos mais gente oportunista abandonando animais em nossa sede. Mudamos de endereço várias vezes e problema continua. Procuramos dono de barraca de espeto. Basta abrir o ponto ao lado de nossa ONG, para deixar os criminosos confusos. E não, não vamos oferecer a carne dos animais que doamos.