
A defesa holandesa é minha favorita, mas não me salvou dessa vez.

A defesa holandesa é minha favorita, mas não me salvou dessa vez.
Eu testara as possibilidades das planilhas com meus hobbies antes, mas nada que me fidelizasse por muito tempo. O chess.com permitia salvar, em lote, até 50 das últimas partidas, mas não encontrei algo parecido no lichess, então copiei o PNG de algumas manualmente para meu próximo projeto. De forma nativa, as engines desses sites permitem calcular as chances de vitória à medida que você executa este ou aquele movimento, na hora da análise. Embora útil para treinos de longo prazo, não me parecia muito visual, então decidi aplicar um mapa de calor aos dados, para ter uma espécie de topologia do tabuleiro aplicada, pelo menos, a meus padrões de jogo. Como fiz isso? Configurando a planilha, o que é um passo mais delicado do que o de obter os PNGs em si.
Criei um arquivo com duas planilhas, ‘Heatmap’ e ‘Partidas’. Na primeira, criei linhas de a1 a h8, correspondendo às casas do tabuleiro. Criei também três colunas: L1 (lance 1); L1B (jogada das brancas no lance 1); L1P (jogada das pretas no lance 1), e assim por diante. Guarde esta informação, pois ela gerou uma armadilha que tive que contornar mais à frente.
Na planilha de Partidas, a ideia era ir colando os PNGs sem maiores ajustes, mas estes são gerados com uma linha por informação da partida. Se eu fosse usar uma coluna por partida, portanto, ficaria impraticável a análise. A solução foi usar algo que mais pessoas deveriam conhecer, algo aprendido ainda na escola, quando estudamos matrizes: a transposta.
Quando fui preparando as colunas da planilha Partidas, criei uma para cada informação dos PNG, na ordem em que aparecem: data, nome dos jogadores, ELO de cada um e por aí vai. A última coluna ficou com a notação das jogadas. Como fazer com que essas jogadas dialoguem com a outra planilha, para que esta consiga fazer uma contagem das jogadas em determinada casa? Meu impulso inicial foi o de criar um arquivo .csv no Notepad++, colar as jogadas lá e, com uma série de substituições no texto, limpar os dados. Mas veja só… para quê usar outro programa se o Google planilhas já faz isso? Sim, existe uma fórmula nativa para isso: =substituir().
Em pouco tempo, veio a constatação de que eu teria que fazer isso para cada um dos PNGs. Inviável. Quem tem que trabalhar para mim é a planilha, e não o contrário. Hora de pensar em um plano B. E este veio quando me recordei de como linguagens de programação lidam com strings. Se elas permitem dividir textos, por que o Excel não permitiria? Até o Power BI faz isso de forma mais intuitiva, com um botão. Não temos botão de fácil acesso para isso no Excel, mas a fórmula, felizmente, é simples. À direita da célula contendo a notação das jogadas, use =split(). Na minha planilha, ficou assim: =split(T15; ” “). O segundo argumento da fórmula contém um espaço. Isso informa à fórmula que, toda vez que um espaço for encontrado, o texto deve ser dividido e uma coluna deve ser preenchida com a próxima parte fatiada do dado até outro espaço aparecer, e assim por diante. Sinsalabin, divida as jogadas para mim! 🧙♂️

Chegou a hora de voltar à planilha de Heatmap. Mas antes de fazer isso, quero falar da armadilha mencionada há pouco. Repare os nomes das colunas: L1, L1B, L1P, L2, L2B, L2P… L de lance, B de brancas, P de pretas. Até aí, nada de mais. O problema é que essa não foi a primeira versão dessas colunas. Inicialmente, eu as nomeara L1, LB1, LP1, L2, LB2, LP2… e abaixo trago mais uma imagem, agora da planilha Heatmap, para vocês entenderem melhor o que aconteceu. Na célula B3, a fórmula inicialmente era:
=CONT.SE(Partidas!V:V; A3)
E isso gerou um ruído na contagem. Vamos dizer que, das partidas cadastradas, duas tivessem iniciado com um movimento para a célula B1. Sim, eu sei que isso é impossível no jogo, é só um exemplo. Do jeito que a fórmula estava escrita, o resultado informado seria 3. Motivo? Por a coluna V, na planilha Partidas, estar inicialmente com o nome LB1. O Excel acabou contando ‘B1’, dentro dessa string, também. A solução foi renomear a coluna em Partidas: de LB1 para L1B, e o mesmo processo foi realizado para as outras colunas.

Isso resolveu um problema, mas não outro. E em breve a fórmula na imagem fará sentido. Ainda fazendo testes com uma partida só, na hora de usar =cont.se para calcular o lance 4 na planilha Heatmap (ou seja, colunas L4B e L4P), o lance das pretas, exd5+, não foi contado. Como assim? Em um momento, o Excel conta a mais e agora conta a menos? Sim. Se antes resolvemos o problema apenas renomeando as colunas, agora precisamos editar a fórmula, para que situações semelhantes não nos peguem mais de surpresa. E isso é feito com caracteres curinga, representados por “*”. Às vezes vai acontecer de ter alguns caracteres antes da casa do tabuleiro que queremos contar. Pode ser qualquer caractere, como prever isso na fórmula? Com este símbolo: *. E como ele é texto, deve ficar entre aspas. Para juntá-lo ao valor em uma célula, use ‘&’. Como nas linguagens de programação, mesmo. Dê Enter a certifique-se de aplicar esta alteração para todas as fórmulas em Heatmap. Agora o texto “exd5+” deve ser contado. Felizmente, neste caso, o Excel não confundiu “+” com um operador matemático.
E atenção, tem uma coisa que me ocorreu agora: enquanto escrevo este texto, percebo que não contei os roques. Não são casas do tabuleiro, mas duas peças se deslocam entre elas. Não senti necessidade de fazê-lo no momento, então trago esta informação para se levar em consideração caso isso faça sentido em seus estudos. Também não contei a quantidade de jogadas. Isso pode ser feito, na planilha Partidas, com uma coluna extra para informar os lances e, usando a mesma célula contendo os lances, a fórmula:
=CONT.VALORES(U2:IF2)/3.
Substitua pelo intervalo que você precisar, e divida tudo por 3. A divisão é necessária porque, depois que usamos =split(), temos três colunas para cada lance, lembram-se? Então, para o número exato de lances ser exibido, usamos a divisão. Pode-se ainda configurar as células para arredondar os números.
Caso esses dados sejam mais interessantes para você se visualizados em tabuleiro, por cima, você pode criar uma nova planilha. Nela, prepare um quadrado de 8 x 8 e coloque as letras e números das coordenadas ao redor. Para cada quadrado, realize uma soma usando os dados da planilha Heatmap. Na casa A2, por exemplo: =SOMA(Heatmap!B2:U2).
Isso gera um total global, mas pode haver momentos em que seja mais interessante saber quais casas são mais usadas em determinado lance. Ainda usando a casa A2 como exemplo, a fórmula acima seria adaptada assim: =SOMA(Heatmap!B$2:C$2). Enquanto, na primeira fórmula, estávamos somando todos os lances e retornando um total global para cada casa, aqui escolhemos apenas as colunas contendo o lance desejado. B2 e C2, neste caso, contém L1B e L1P, o lance das brancas no lance 1, e o lance das pretas no lance 1, respectivamente. Conforme imagem anterior.
Neste ponto, só alguém perfeccionista se daria ao trabalho de fazer um mapa de calor por lance, por cor de peça no lance, ou ainda por tipo de peça de cada cor no lance. Não, ainda não tive coragem de gastar tanto tempo assim, e mesmo me limitando a saber quantas vezes uma casa é ocupada em determinado lance (pelas pretas E pelas brancas), o trabalho é bem repetitivo. Quer dizer, era. Até eu ter uma ideia. Acompanhe a imagem abaixo.

Voltemos ao exemplo da casa A2. No primeiro lance, dissemos que a fórmula ficaria assim: =SOMA(Heatmap!B$2:C$2). E para o segundo lance? Bastaria andarmos duas colunas à direita: =SOMA(Heatmap!D$2:E$2). Se eu quiser calcular para a casa A3, uso para os dois primeiros lances, respectivamente: =SOMA(Heatmap!B$3:C$3) e =SOMA(Heatmap!D$3:E$3).
Agora imagine fazer isso para as 62 casas restantes, para cada lance. Desanimou? Eu também, até que tive uma ideia mais eficiente. Prepare as fórmulas apenas para o primeiro lance e copie para os demais lances. A função de Substituir do Google planilhas não substitui dentro das fórmulas, mas você pode configurá-lo para fazê-lo. Selecione a opção ‘Pesquisar também dentro de fórmulas’, selecione o intervalo do novo lance com os dados colados do lance anterior, e altere apenas as letras, conforme mostrado na imagem. Não se esqueça de escolher a opção ‘Intervalo específico’ para pesquisar, e confirme à direita se o intervalo está correto. Aperte o botão mágico de Substituir e voilà!
De brinde, confiram as legendas infames que adicionei. Esse processo de aprendizado é bacana, rever as partidas, ver as coisas que não vi durante o jogo, ponderar sobre o que eu faria diferente.


















As descobertas foram obtidas exportando as 50 últimas partidas que joguei até 8 de outubro de 2024, e analisadas no Lucas Chess. Não deve ter nada de muito novo aqui para um jogador comum, mas qualquer narrativa fica interessante com dados.

Com as brancas, usei mais a abertura vienesa, que consiste em mover o peão para E4, ao passo que o adversário move o peão para E5 e as brancas movem o cavalo do flanco esquerdo para C3. Treinando aberturas no mesmo aplicativo, esta abertura tem se mostrado bem eficiente por dificultar a aplicação do mate pastor por parte do adversário. Após E5, se o adversário mover a dama para H4, as brancas podem mover o cavalo para F3. Se não der tempo, uma alternativa drástica é a de proteger o rei com sua própria dama, o que muitas vezes funciona como mecanismo de dissuasão, quando não dá tempo de mover o cavalo do flanco direito.
A Réti começa movendo o cavalo do flanco direito para F3, com preto indo para D5 com o peão e as brancas movendo o peão para E4. Embora eu tenha usado pouco em minhas partidas, o índice de vitórias é alto, e com certeza vou cogitar aplicá-lo mais. Quanto à abertura dos 4 cavalos, ambos oponentes jogam seus peões para o centro, e se as brancas movem o cavalo para atacar um peão, as pretas movem o cavalo que não o faz, as brancas fazem o mesmo, e por fim o cavalo das pretas ataca o peão das brancas. Opção para estudar o adversário e ganhar tempo.
A defesa Petrov, variante dos 3 cavalos, faz algo um pouco diferente. Após os dois peões no centro, os cavalos de ambos os lados se movem para atacar os respectivos peões, mas no próximo movimento das brancas, o terceiro, o cavalo da esquerda é movimentado sem atacar. A Vienna game começa com os peões no centro e, após as brancas moverem o cavalo para C3, as brancas, em vez de usar a mesma peça, optam pelo bispo C5, na mesma coluna das brancas, atacando o cavalo das brancas pela diagonal. O índice de derrotas é alto para meu perfil.
A defesa Alekhine foi usada poucas vezes contra mim, mas pode ser uma alternativa conforme eu ganhe mais experiência e presuma que um adversário é mais astuto. E daqui para frente, todas as aberturas foram usadas apenas uma vez, em um universo das 50 últimas partidas minhas. A abertura dos 3 cavalos é parecida com a abertura dos 4 cavalos, basta desconsiderar o último movimento, quando o cavalo das pretas ataca o peão das brancas. Possui índice de vitória muito bom. A defesa Benoni antiga, feita exclusivamente com peões, é formada por 1.e4 e6 2.d4 c5 3.d5 . Boa para as brancas ocuparem o centro e estudar o adversário. Se, após 3.d5, as pretas capturarem o peão, a coluna das brancas fica aberta e ideias de xeque podem surgir. Também possui índice bom de vitória. A defesa Robatsch moderna, por outro lado, se mostrou péssima para as brancas, sem vitórias registradas. Ao mover g6, as pretas não permitem que as brancas ataquem a torre na rodada seguinte e reforçam a diagonal do rei. O mesmo índice ruim se apresentou para a Defesa francesa: cavalo branco, embora possa ser usada para dificultar a aplicação do mate pastor por parte do adversário, e para a Defesa Pirc: gambito de Roscher. Formada por 1.e4 d6 2.d4 Nf6 3.Nf3, deixa a diagonal esquerda do rei das pretas exposta. Com uma boa estratégia, pode ser uma fraqueza interessante a ser exposta pelas brancas.

Quanto às aberturas em que eu joguei com as peças negras, os três primeiros colocados concentram a mesma quantidade de jogos que os próximos 13 colocados.
E isso não é meu caso, pelo menos nessas partidas que quero esquecer. O Lucas Chess gera gifs das partidas, e vou comentar algumas delas.

Nesta partida aqui, com abertura escocesa, eu tinha tudo para perder, mas o oponente abandonou. Joguei de pretas. Houve um momento de virada que eu não aproveitei: no lance 10, quando as brancas capturam meu peão em D5, a barra de análise dispara a favor das pretas. Era só capturar com a dama, colocando-a no centro, e perdi essa chance. Como um artilheiro superestimado no Brasileirão. Acho que, como iniciante, ainda tenho o jogo muito reativo: assim que vejo uma peça inimiga próxima à minha, meu impulso inicial é capturá-la ou fugir dela. E sempre precisamos olhar para cima.

Com abertura em defesa Alekhine, a próxima partida é mais pavorosa ainda, mas os erros crassos foram dos dois lados: o emocional acabou embaralhando o jogo de ambos. São tantos erros que precisei anotar para não errar. Alguns dos piores são: Lance 8, bispo em F4, onde dei de bandeja meu cavalo. Lance 13 com XC7, onde avanço com meu bispo contra a fileira do adversário, sem peça para me cobrir. Lance 19, com XF7+, esse sendo meu, um erro que acumula com o do lance 13: tenho dois bispos na fileira adversária, e não consigo fazer nada com eles. Lance 21, com adversário movendo a dama para F5+. Perdi a oportunidade de capturá-la com minha torre em F1. Precisamos também olhar para baixo. Lance 31, com adversário movendo XH2+. Aqui, não capturei a dama com o bispo. Sim, aquele que ficou descansando na fileira inimiga. Essa dama parece um bagre ensaboado, mas eu assumo meus erros por ter arrastado um jogo ganho por tortuosas 42 rodadas.
Em algumas ocasiões, mesmo errando bastante, apliquei xeque-mate. O jogo a seguir pode ser lido no chesstempo, no Lucas chess e outros lugares. Neste jogo, repare o que o adversário fez na rodada 11: [Opening “Abertura Vienesa”]
[ECO “C25”][Result “1-0”] 1.e4 e5 2.Nc3 Qh4 3.Nf3 Qe7 4.d4 exd4 5.Nxd4 Nc6 6.Bc4 Qd6 7.O-O Nxd4 8.Re1 Qc5 9.Be3 Qxc4 10.Nd5 Nxc2 11.Qc1 Qxe4 12.Nxc7+ Kd8 13.Bg5+ Be7 14.Rxe4 Kxc7 15.Qxc2+ Kd8 16.Bxe7+ Nxe7 17.Qe2 Nc6 18.Re7 Nxe7 19.Rc1 Re8 20.Qc4 d6 21.Qc7#
Aqui, o oponente, de pretas, estava indo bem, sem grandes destaques, tendo condições de dar xeque e preparar o mate. Em vez disso, ele perdeu tempo capturando um peão solitário no centro. Como assim? Mesmo tendo meu cavalo capturado de bobeira pelo rei no lance 14, aí tudo se perde para o adversário, com o rei completamente exposto e quatro peças de ataque presas, sem poder apoiá-lo. Mesmo assim, eu quase estraguei tudo, e salvei minha vitória com a dama invadindo a fileira adversária.
E depois de ter torturado vocês com essas capivaradas, encerro com uma pintura: na partida Niemann-Maze, de 2020, o primeiro vence a partida contra o Grande Mestre sem capturar uma única peça. Uma aula de jogo posicional, de como não se expor mais do que o necessário, de como ganhar tempo. Subjugar o adversário com um garfo na hora certa pode ser mais satisfatório do que um mate.
